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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Lucíola, de José de Alencar

Entre clássicos e contemporâneos, parece haver uma distinção um tanto grande, inclusive quando se trata de escolha de obras para o trabalho em sala de aula ou leituras para vestibulares – para estas, inclusive, já existe inúmeros textos abordando os pontos principais da obra, seu contexto histórico, perguntas e respostas de vestibulares já passados e até edições de livros que acompanham, ao final, algumas destas questões, além de textos complementares sobre autor e obra, e até guias de leitura para serem usados em sala de aula. Algumas dessas obras clássicas, conhecidas principalmente por caírem como conteúdo de vestibular, às vezes se propagam e exigem uma certa leitura obrigatória; sendo este um dos fatos pelos quais os estudantes procuram cada vez mais esses textos de apoio que dizem praticamente tudo sobre a obra. Apesar de alguns pontos negativos, não se pode negar que essa leitura obrigatória amplia o alcance da obra e propicia cada vez mais o contato com a leitura. Tanto se diz e se fala, que a obra quase tem uma análise completa pelos inúmeros sites da internet. Seja sobre os aspectos principais, seja sobre a leitura em si. Acaba que comentar esses textos se torna uma tarefa complicada; porque muito (ou quase tudo) já foi dito, e o que não foi é muito provável que seja algo muito específico ou referente a uma experiência de leitura – que envolve mais o leitor do que a obra em si. A mim, isso soa como uma pequena barreira, porque obras assim, clássicas, principalmente se são nacionais e bem-conhecidas, de tão comentadas, parecem que não necessitam de mais um texto repleto dos mesmos pontos de qualquer outro, além de que minha visão limitada nada tem a acrescentar. Principalmente se leio a obra por prazer, distração, e não estudo.

Partindo disso, porém, acabo por cair num beco sem saída, pois todas as obras – ou quase todas – são bastante lidas e comentadas, mesmo as que acabaram de ser lançadas. O que faz com que, nessa linha de pensamento, não faria sentido eu escrever sobre qualquer obra que fosse. Um tanto dramático, talvez? É possível. E ao mesmo tempo pode ter uma outra linha de pensamento, em que "não se está nem aí", que simplesmente se escreve um texto, sem nada a acrescentar e o joga por aí; alguém perderá tempo lendo. Não há certo ou errado. Até acho que já comentei aqui a respeito disso, porque cada vez mais parece que discorrer sobre uma obra se torna sem sentido, se, para a pessoa que escreve, não houver um outro motivo ali incluído. Digo, às vezes só me sinto satisfeita se coloco para fora o que penso de uma leitura que concluí; e esse é um dos meus motivos para escrever. Outro motivo meu é que não quero perder a prática da escrita, porque sei que ela é, mais do que talento ou qualquer coisa que possam dizer, uma questão de emoção e prática. Também considero nisso algo que aprendi na graduação: para se ensinar bem alguém a ler, precisa-se ler. O mesmo também pode estar ligado à escrita. Não que seja obrigatório, mas conhecer o processo na própria prática te permite um conhecimento que livros teóricos podem não te dar nunca. Enfim, cada pessoa tem seu motivo. Mesmo que o texto escrito só venha a se tornar mais um grão numa praia de textos.

Isto foi uma espécie de desabafo, talvez. Bem, junto a isso, e resolvida a levar a cabo as propostas que me impus com este blog (que tem ênfase nos livros clássicos), eis que resolvi escrever meu texto com minha visão limitada de Lucíola – apesar de soar repetitivo, não quero deixá-lo incompleto para quem ainda não conheça a obra –, e dizer o motivo pelo qual eu recomendo a obra, mas não a edição que eu li. Primeiramente, como cheguei a tal edição que li: devido às disciplinas de Literatura Brasileira da faculdade, já havia ouvido falar muito de José de Alencar (1829-1877) – apesar de eu sempre confundir o nome –, e uma colega – nesse momento infelizmente não lembro exatamente quem, já faz um tempo...  me disse que havia adorado Lucíola. A isso somou-se o fato de que recentemente comentaram essa obra comigo; bom, por que não ler, então, já que eu estava realmente querendo um livro pequeno? Pesquisando a obra online cismei com a edição de capa vermelha da Martin Claret; comprei-a. Infelizmente, só quando fui ler é que reparei nas margens pequenas. 💦 Um pequeno empecilho que me faz não recomendar essa linda edição; porque a tal margem fez com que eu precisasse "forçar" um pouco o livro para poder lê-lo e eis o que aconteceu com a capa:

Essa "linha" esbranquiçada do lado esquerdo do livro se formou porque eu talvez ficasse abrindo demais o livro; mas ou eu fazia isso ou teria dificuldades para ler. *sigh*
Essa é a margem que me incomodou um bocado. Geralmente não se precisa abrir muito para poder ler, mas se observar bem, sem "esticar" o livro, mal dá para ler. O lado direito está mais direitinho, o problema de fato é com esse esquerdo... 💧 

Bem, a obra é narrada em primeira pessoa por Paulo (olha só, quase meu xará!), um homem que, ao que sabemos, escreve cartas a uma senhora, e a história que lhe conta resulta em 21 capítulos – imagino que cada capítulo pudesse ser uma das cartas que ela diz ter recebido; mas, não tenho certeza. É esta senhora que reúne tal texto e lhe põe um título, Lucíola, justificando-o como um nome de inseto, que mesmo em meio a uma obscuridade total consegue iluminar-se. Este nome, como ela logo explica, parece sintetizar a essência da mulher que ele lhe retrata. A narrativa de Paulo, por sinal, surge no intuito de explicar à senhora o porque, em seu discurso, dispunha-se a ter tanta indulgência, clemência, com pessoas infelizes que são mal vistas pela sociedade; e acaba por lhe descrever "um perfil de mulher" (p. 23), que foi, para ele, uma grande marca e, também, certa influência. Em seu relato, viemos a conhecer sua história e a de Lúcia, uma das cortesãs mais 'almejadas', desejadas, no Rio de Janeiro, sendo dela o perfil mencionado. Aliás, antes de ler a obra, imaginava que seu nome seria Lucíola, mas vim a descobrir depois, no Recanto das Letras, que Lúcia é seu diminutivo, e significa luz e brilho; assim como Lúcifer. Interessante, não? Bem, Paulo a conhece logo no primeiro dia em que chega ao Rio de Janeiro – tendo vindo de Pernambuco –, e se encanta com sua imensa beleza, sem saber qual era sua 'posição' na sociedade; embora não muito diferente de hoje em dia, naquela época era uma imensa desonra se sujeitar a esta situação, considerada indigna e que lhe dá uma reputação manchada para sempre. A partir daí decorre-se a história de seu encantamento, e pode-se dizer, acho, amor pela moça; e vice-versa.

"De resto, a senhora sabe que não é possível pintar sem que a luz projete claros e escuros. Às sombras do meu quadro se esfumam traços carregados, contrastam debuxando o relevo e colorido de límpidos contornos." (p. 24).

Quanto ao enredo, resta pouco a dizer, dado ser, basicamente, a história dos dois. Encantado com Lúcia, Paulo busca se aproximar dela, embora lhe digam para, de certa forma, tomar cuidado, manter um distanciamento, enquanto conhece a Corte e o Rio de Janeiro em si. Porém, é a ingenuidade dele nessa nova cidade e seus hábitos que o faz "não desistir", o faz querer ainda mais conhecê-la e ser amante dela. Então decorrem encontros e desencontros etc.

Quanto à edição que eu li – da Martin Claret, que faz parte da coleção A obra-prima de cada autor – comenta sobre a obra, inclusive dizendo ser importante considerar o contexto da obra e o fato de que as mulheres retratadas não são mulheres reais, e sim idealizadas. Isso realmente é importante. Porque nesse romantismo, a idealização põe a mulher numa espécie de pedestal – e de lá meio que a mulher não faz coisa alguma; inclusive tem toda a questão de ser 'pura' e 'educada' –, a ser admirada e almejada. Lúcia, considerada um tanto excêntrica e cheia de caprichos, apesar de caminhar em direção a essa idealização, por meio do amor de Paulo – ah, a romantização... o que o amor não faz, não é? –, já começa longe de ser 'pura' e 'casta', afinal, embora cortesã possa ser uma palavra que soe bonitinha, ela vive numa vida devassa, vendendo o próprio corpo. Aliás, é interessante ver que ela se mostra uma personagem complexa e leva a uma dualidade questionadora – cuja explicação é dada mais ao final da história, lhe proporcionando ainda mais, a meu ver, um papel romantizado, de moça idealizada –, às vezes sendo descrita com um ar angelical, e, às vezes, com uma aura diabólica/maliciosa. É da descrição dela, de seus atos e o poder da sociedade sobre ambos que surgem diversos temas e críticas. A começar pelo 'poder' da sociedade de optar pela escolha alheia; a dizer o que é certo ou não. Exemplo seria o quão 'impura' é considerada uma cortesã, capaz de manchar a honra de famílias 'decentes'.

"Há aqui no Rio de Janeiro certa classe de gente que se ocupa mais com a vida dos outros, do que com a sua própria; e em parte dou-lhes razão; de que viveriam eles sem isso, quando têm a alma oca e vazia? Essa gente já sabe quem tu és, que fortuna tens, quanto ganhas, onde moras e como vives." (p. 77).

Outros temas da obra, além da prostituição e devassidão da Corte do século XIX, são a dualidade entre corpo e alma, amor físico e espirital e os preconceitos da época. A análise de Lucíola no site Guia do Estudante expõe bem esses pontos; e a resenha do site Recanto das Letras também traz uma visão bem detalhada da obra e da figura de Lúcia. Recomendo ambos os textos, caso se interessem (mas aviso, a quem isso possa desagradar, que podem ter spoilers). Inclusive o texto do Guia do Estudante comenta o fato do não distanciamento do narrador com a história, mesmo estando contando-a alguns anos após sua história com Lúcia ter terminado – o que se torna muito mais evidente e considerável quando se sabe como essa história termina. Digo, o narrador expõe os fatos como se os estivesse vivenciando, quase que no presente; mas sabe-se que tem um distanciamento, por comentários seus, em vagas análises dos acontecimentos, dirigidos à senhora.

"Mas a senhora lê e eu vivia; no livro da vida não se volta, quando se quer, à página já lida, para melhor entendê-la; nem pode-se fazer a pausa necessária à reflexão. Os acontecimentos nos tomam e nos arrebatam às vezes tão rapidamente que nem deixam volver um olhar ao caminho percorrido." (p. 38).

Disso acho interessante mencionar o estilo do autor; e só após ter comentado com a Helena foi que realmente compreendi que ler uma tradução de clássico nunca é a mesma experiência de ler um clássico no original – e aqui falo de textos em língua portuguesa, porque, né... –, dado que grande parte das traduções, mesmo adaptando a linguagem e tornando-a mais próxima de como seria àquela época, não será e não proporcionará uma experiência de leitura de textos da época na língua originalmente escrita. De início, admito que o estilo de Alencar me surpreendeu um pouco, talvez por fazer tanto tempo que não lia algo parecido, cujas frases parecem utilizar de ordens diferentes; aliás, até o uso das vírgulas me pareceu um tanto diferente (lendo ficava pensando como seria tirar ou colocar uma vírgula aqui e outra ali). Não sei se isso se deve ao fato de que José de Alencar, como menciona um dos textos complementares da edição, tentava se distanciar da linguagem utilizada por Portugal, mas foi interessante pensar depois que achei seu estilo bem distinto, um tanto diferente de Machado de Assis, outro autor do qual já li algumas obras. Esse estranhamento que tive ao início, porém, após a leitura de algumas páginas, foi sumindo ao passo que fui me acostumando ao estilo do autor, de modo que a leitura se tornou um tanto fluida.

"Sucede com as feridas d'alma o mesmo que às feridas do corpo; é quando elas esfriam, que a dor se torna aguda e lancinante." (p. 92).

Sobre a edição, apesar das horríveis margens pequenas – que não estão presentes dessa forma em outros volumes da mesma coleção –, é preciso dizer que os textos complementares são bem interessantes, tendo, inclusive, um guia de leitura e algumas questões de vestibular (com gabarito). Sobre o guia de leitura, admito que me senti uma má leitora ao ver que algumas das questões eu não saberia, e ainda não sei, responder. A pior para mim foi: "Em que momento se dá o clímax do enredo de Lucíola?" (p. 153). E eu sinceramente não sei; seria quando sabemos o que acontece com ela ou quando descobrimos sobre Maria da Glória? Ou é ou dois? Ou nenhuma dessas opções? 💦Se souberem, agradeço se me disserem.

Enfim, a obra é considerada um romance urbano e um retrato de uma sociedade, cujos aspectos, em parte, ainda aparecem atualmente. Um ponto particularmente curioso da história é ver essa idealização, a 'redenção' e o encontro com a paz somente por meio desse lado espiritual em contato com a natureza, com a purificação. Bem, mesmo idealizado, e que em alguns momentos eu realmente não compreendi algumas atitudes dos personagens, é uma leitura agradável e que vale a pena. ✌

"Não sei o que sou, sei que começo a viver, que ressuscitei agora." (p. 129).

ALENCAR, José de. Lucíola. 3. ed. São Paulo: Martin Claret, 2011. 157 p. (Coleção a obra-prima de cada autor; 100).

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

[Hel] Sobre amizade e livros

       Em cada etapa de nossas vidas, em cada lugar novo a que vamos, temos a oportunidade de conhecer pessoas novas. Novos conhecimentos, novas experiências. Gostaria de poder fazer, agora, um enorme discurso sobre isso, sobre essas etapas; particularmente sobre esta etapa que estou concluindo neste semestre, a graduação. Talvez faça isso depois, quando tiver um tempo maior para isso. Infelizmente, nessa pressa, serei mais sucinta. Hoje, especialmente, dia 30 de novembro, é meu aniversário, mais um ano de desafios, conhecimentos e... Principalmente, mais um ano com pessoas incríveis. Dediquei meu TCC a essas pessoas, e talvez devesse fazer um texto só para isso futuramente... Enfim, uma dessas pessoas incríveis, a Helena, minha amiga e colega de graduação, dona do blog Leituras e Gatices, escreveu um texto muito lindinho 💜 para mim. Sendo que, além dos ouricinhos, livros, literatura e leituras são assuntos que também já falei e muito falarei no blog, estarei compartilhando este texto, porque além de fofo, fala de livros, de leituras e de A elegância do ouriço (já sabem como eu amo esse livro 💛). 
       Para mim, a leitura e os livros têm esse poder lindo; foi parte da minha motivação em cursar Letras, é parte da motivação que me faz questionar sobre as leituras alheias - Moça da Segunda Fase, sinta-se aqui mencionada também - e é, em síntese, algo mágico. Enfim, agradeço pelo texto maravilhoso e termino desejando leituras maravilhosas a todos. Espero que todos conheçam ou venham a conhecer também pessoas tão incríveis quanto essas que eu conheci nesse período de graduação! Muito, muito obrigada, Helena. 💙

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Sobre amizade e livros

Muitos já tentaram definir o que é a amizade, há diversos adjetivos que se encaixam: lealdade, confiança, parceria, cumplicidade. Segundo Quintana, “A amizade é o amor que nunca morre.”. Segundo a pessoa que vos fala, amizade é tudo isso e muito mais. Eu não gosto de definir as coisas, mas algumas considerações podem ser feitas sobre a minha amizade com a dona desse blog no qual vocês estão lendo este singelo texto. A Paula é aquela pessoinha fofa que empresta livros (qual a maior prova de amizade do que emprestar livros?), que dá dicas de leitura e que conversa sobre o que está lendo. É aquela pessoa que não sabe o quanto é maravilhosa, e fica sempre achando que o que faz não é bom o suficiente (quando, na verdade, ela só arrasa). Ela escreve as melhores resenhas e tem um ótimo gosto para livros e autores, gosta de gatinhos, pandas e corujas, os animaizinhos mais fofos da galáxia <3 . É aquela pessoa que se pode contar em todas as situações, desde confiar um segredo até revisar um texto (se quiser revisar este, Paula, fica à vontade, haha).
Hoje é o dia do seu aniversário e, além de agradecer pela sua amizade, queria também agradecer por todas as coisas que aprendi contigo. Agradecer também por me fazer ler A elegância do ouriço, que é simplesmente o livro mais lindo do universo, que não por acaso fala de amizade e livros, de como a Literatura pode aproximar as pessoas e de como podemos julgar uma pessoa sem conhecê-la. Não que antes de eu ser tua amiga eu te julgasse mal, eu apenas não imaginava que você fosse uma pessoa tão interessante. Você sempre foi quieta e discreta, nunca mostrou de verdade o quanto você era inteligente, simpática e querida. Não te considero um ouricinho, mas de certo modo você é como a Reneé, esconde muita beleza dentro de si. E aconteceu de eu não ter olhos de Paloma e de Sr. Ozu, que enxergam além das aparências. Fico grata por ter, certo dia, trocado de lugar na sala e ter ido sentar perto de você e da Julya. Esse pequeno gesto mudou completamente o modo como eu te enxergava e me fez ganhar as duas melhores amigas que se pode ter durante os anos da graduação (e da vida também).
Feliz aniversário é o que te desejo para esse dia. Muito sucesso para sua vida profissional. Muitas leituras e livros lindos para sua bagagem literária e para sua estante. E continue sendo essa pessoa incrível.


Beijinhos, Hel.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

"O Gato Preto", de Edgar Allan Poe

Outubro terminando, mais um Halloween e eis que resolvi postar um pequeno texto que, embora não tenha muito a ver com a data, apresenta elementos considerados de "má sorte", como o gato preto. Escrevi esse texto para uma aula de Literatura, em que tínhamos que escolher algum ponto de uma das leituras do semestre e escrever sobre isso. Optei pelo conto O gato preto, e quis comentar sobre a culpa e a consciência no narrador deste conto de Edgar Allan Poe. O tema, enfim, me pareceu muito interessante, embora eu talvez não tenha escrito o tanto que a temática em si merecia. Seja por tempo ou por falta de conhecimento a respeito disso. Ah, pequeno detalhe, tem spoiler. Enfim, segue abaixo, espero que não se decepcionem. =)

Bom halloween a todos!

Fonte: Pixabay.

Aclamado escritor de mistério e precursor de recursos narrativos ligados à ficção de mistério e à ficção policial, Edgar Allan Poe escreveu, em 1843, o conto O gato preto. Além de iniciar com um tema tão abrangente e questionador como o bem e o mal, a história aborda também a questão da culpa e da consciência, demonstrados por meio dos pensamentos do narrador e de seus atos de violência. O conto narra a vida de um homem que, impulsionado pela fúria e pelo alcoolismo, pratica ações desprezíveis contra vidas alheias, como privar seu gato preto de um de seus olhos e assassinar a própria esposa. 

Demonstrando ao leitor ter sido, por longos anos, uma pessoa amável e que adorava animais, ao ponto de criar vários deles, a mudança drástica de atitude causa um questionamento e uma particularidade da existência humana, que envolve tanto a adaptação quanto à capacidade de percepção dos atos infligidos. A própria consciência do narrador o mostra que houve uma mudança em si mesmo, e que foi uma mudança radical. E isso se percebe pelos comentários sobre seu passado e presente; as atitudes e personalidade antigas e as atuais (no conto). Apesar da consciência da crueldade que estava passando a ter, o narrador-protagonista não parece forçar-se a mudar, como se apenas compreender o que fora e é fosse o bastante. A culpa, de fato, cruel e devastadora, parece inexistente, até o momento que seu primeiro “crime” seja cometido, isso é, o assassinato de seu gato preto. 

A história continua se desenrolando após o aparecimento de outro gato preto, muito semelhante ao primeiro, inclusive quanto ao olho, sendo diferenciado apenas por uma marca branca no pelo, próxima ao pescoço. A partir de então pode-se começar a notar uma nova alteração nas atitudes do narrador, se sentindo quase que claustrofóbico, assustado, com a presença do gato, ao ponto de querer se livrar do pequeno. Numa tentativa, acaba por matar a esposa, e perder o gato de vista. Esse assassinato, aparentemente perfeito – isso é, sem possibilidades de que fosse descoberto –, aparentemente não causa peso na consciência do narrador, que parece apenas se questionar da localização do gato. Ao passo em que se poderia dizer que a ausência, explícita, de culpa, poderia ser resultado de uma consciência que parece mais em conflito com a mudança do decorrer de sua vida.

A parte final do conto associa-se a um outro conto do autor, O coração delator, cujos finais se aproximam quanto a um criminoso e a descoberta de seus crimes. No caso de O gato preto, o protagonista se sente tão convicto e livre da culpa que se delata, batendo na parede que esconde o cadáver da mulher. A culpa (explícita) sede espaço ao pavor, ao medo e à angústia. Emoções que também podem ser associadas à mente culposa.

Mais que um conto narrado por um personagem movido pelas sensações e fúria, O gato preto mostra uma faceta da humanidade; a mudança do indivíduo ao longo do tempo, a influência de elementos externos (como o álcool), a consciência dos próprios atos e, também, a culpa, que por vezes aparece não como arrependimento, mas como um medo, um pavor das consequências.

POE, Edgar Allan. O gato preto (Tradução de José Paulo Paes). In: POE, Edgar Allan. Histórias extraordinárias. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. Cap. 4. p. 69-79.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Um poucochinho sobre livros, leituras e a ação de compartilhá-los [Parte II]


Com o tempo, os detalhes de uma leitura vão sendo esquecidos e restará, em grande maioria, um amontoado seleto de cenas fragmentadas e, numa visão maior, uma impressão. Por vezes uma impressão boa, densa, por vezes algo vago e vazio. Com a sociedade da neve, de Pablo Vierci, por exemplo, obra que li durante o Ensino Médio, ficou uma impressão de uma história surpreendente, de que seres humanos se adaptam a coisas impressionantes e que um pequeno fio de esperança já é uma fonte inacreditável de força e coragem para seguir em frente. E essa foi uma leitura que não compartilhei de fato até um bom tempo depois, em que fiz um conhecido lê-lo também (dar o livro de presente é uma forma de incentivo a leitura também, não acham? Embora às vezes seja uma certa pressão...). Já sinto que é diferente de uma leitura que fiz sabendo que a compartilharia logo em seguida, como Peter Pan ou Garota, Interrompida. Em que a leitura individual logo ganhou opiniões diversas e pontos que antes passaram despercebidos veem à tona; um compartilhamento de visões diferentes, uma longa conversa sobre coisas fascinantes. Foi principalmente com leituras assim que pude reparar que cada pessoa, de fato, tem um olhar para o livro; algumas pessoas tendem a marcar as citações que acham mais interessantes. Algumas coincidem, outras não.
Tendo escrito a primeira parte dessa postagem na outra semana, deram-me a ideia incrível de, na mesma temática, sobre conversas de livros, comentar sobre o Clube do Livro. A ideia veio da Julya, do Leituras & Gatices, e espero que esse texto que estou fazendo não a desaponte. Enfim, graças a essa ideia, e na motivação da "Parte I", queria comentar sobre minha visão de um Clube do Livro – a partir do que conheço a respeito, tendo em vista que participo de um. Pensei em duas perguntas que parecem dar conta desse comentário, se houver qualquer dúvida estarei à disposição para respondê-las – se possível.

O que é um Clube do Livro?
Em resumo, é um grupo de pessoas – sem restrições  que conversam sobre livros. Só que é mais interessante que essa primeira frase. Os livros não são totalmente aleatórios e é um tantinho organizado, na verdade, digo, não é cada um conversando aleatoriamente sobre o que anda lendo – apesar de que tudo depende do objetivo do clube, claro. Contudo, convenhamos que precisa-se sempre de um ponto de partida e um elo nessas conversas; principalmente se as pessoas forem um tantinho desconhecidas.
Quanto à escolha das obras, devo dizer que, particularmente, gostei bastante de participar da seleção dos títulos do clube que participo. Claro que cada grupo ou clube de leitura/livro deve ter uma organização diferente, imagino, sendo por temática, autor ou obra, além de se ter um planejamento da quantidade de tempo e encontros. Não é tão complexo quanto pode parecer.
Quando foi organizado o Clube do Livro que faço parte – no final do ano passado , optamos, por exemplo, em partir de meses temáticos, de modo que em cada mês a obra escolhida seria motivada por algo em particular. No mês da mulher, optamos por obras de escritoras com protagonistas mulheres; nesse mês, lemos A cor púrpura, de Alice Walker. A escolha das temáticas teve por base o calendário e suas comemorações; dia da mulher, dia do artista etc. Essa opção de temas nos proporciona uma abrangência de obras que podem ser escolhidas e que permite que a cada ano – se o clube continuar a seguir carreira a partir do ano que vem – o mês seja uma surpresa, mesmo continuando a seguir a mesma temática. O mais interessante é que essa diversidade abrange livros de vários gêneros literários diferentes; há livro de romance, de terror, de memórias etc. O que, às vezes, nos faz sair da nossa tão aconchegante zona de conforto, lendo, às vezes, livros que não leríamos ou que iriamos colocando lá pro fundinho na lista de leitura – como foi o caso de Admirável Mundo Novo, para mim. Eu já pretendia ler a obra, mas estava deixando para depois, e depois, e depois, e sabe-se lá quando eu a leria; não fosse o clube, que tinha essa obra do Huxley como leitura do mês de maio, talvez ainda não a tivesse lido.
Depende muito de qual o objetivo do grupo em questão, mas imagino que a diversidade de autores e nacionalidade nos permita uma visão mais ampla da literatura, nos faça apreciar mais determinado gênero ou estilo literário, ou mesmo depreciar dado gênero. Sempre numa experiência válida, cuja conversa pode vir a gerar ideais e perspectivas diferentes. Lendo Peter Pan, por exemplo, passei batido pela palavra escalpo, até que num encontro do clube fora dito o que realmente isso implicava – uma prática nada inofensiva e delicada. Foi algo muito significativo. Um pequeno detalhe, mas que muda muita coisa.
Não digo que ler apenas o que gostamos seja ruim, mas essa oportunidade diferente nos permite ampliar nosso olhar para a literatura e para o mundo. Se a conversa é produtiva, as perspectivas diferentes podem trazer conhecimentos diversos que por vezes podem fugir do que está apenas no livro. E aí entra aquela questão que acho fascinante que diz que todo texto é incompleto, sendo complementado apenas na leitura, com a bagagem de cada leitor. (<3).

Enfim, resta um comentário extra quanto ao clube do livro. Não deixando nunca de lembrar que cada livro possui sua densidade e seu tamanho, a escolha da obra em dada época – imagine ler algo como Os irmãos Karamázov (900 páginas) em semestre de TCC!  e seu tamanho são essenciais. Se é uma obra grande, geralmente pode haver um espaço maior para a leitura ou exigir mais dedicação, ou um espaço menor para leitura de algo menor  – e exigir menos dedicação na obra em questão. É interessante, principalmente, ver qual o objetivo do grupo; apesar de que só a experiência já vale a pena. (*-*)

O que me a acrescentou participar de um clube do livro?
Antes de qualquer coisa: não desanimem se encontrarem uma leitura negativa no grupo. A primeira leitura do Clube do Livro que participo, em outubro do ano passado, foi o desagradável Sementes no Gelo, do André Vianco. Que leitura decepcionante! O agradável foi ver que não fui a única pensando isso; o desgosto foi compartilhado. A obra deixou tanto a desejar, embora tivesse ideias boas, que um começo desse só podia ser desanimador. Contudo, em novembro lemos Garota, interrompida, da Susanna Kaysen, e em dezembro lemos Peter Pan, do J. M. Barrie; leituras que valem a pena! Recomendo. Convém dar ênfase no fato de que mesmo um livro ruim nos proporcionou uma conversa gratificante. Afinal, aprendemos com erros também. Quando somos capazes de ver algo desagradável num livro, significa que estamos sendo um pouco mais críticos e descobrindo qual nosso gosto literário. E se pararmos para pensar nesse ponto negativo e pensar no que poderia ser diferente para melhorar? Estamos exercitando nosso conhecimento tanto de leitura quanto de escrita, por difícil que possa parecer. Porque opinar na escrita implica também ter certo conhecimento da estrutura ou do processo de produção textual. Bom, nem sempre, mas é uma possibilidade.
Conversando com o pessoal do clube também acabei pegando alguns títulos novos para minha lista de leitura, que me interessaram e estão por aí esperando ser lidos. Esse contato com pessoas de gostos literários diferentes ou mesmo iguais é gratificante, pois mostra que sempre há algo fascinante a ser descoberto e lido. Até um autor desconhecido e que teve uma leitura interessante pode acabar ganhando um novo leitor assim. Este ano, por exemplo, posso dizer que li uma obra da Virginia Woolf pela primeira vez, e já pretendo ler algo dela novamente.
Enfim, respondendo a pergunta, em resumo: conhecimento, conversas valiosas e a possibilidade de percepção fundamental de que cada leitura é única. Mesmo a releitura é algo único. Acima de tudo, conversar sobre livros com pessoas que têm algo a acrescentar é tão animador quanto a própria leitura em si.
Será que esse meu comentário já seria uma resposta do por que participar de um clube do livro?

Por fim, e considerando que esse blog é, em si, uma busca por leituras que valham a pena, além de no caminho poder me deparar com ouriços, queria dizer que sim, já encontrei ouricinhos nas leituras do clube; Sementes no Gelo resumiria tudo. Devo dizer, também, que mesmo Admirável Mundo Novo foi uma surpresa grandiosa, diferente da vaga impressão que eu tinha antes da leitura. 
Bom, era isso, e espero que esse poucochinho sobre livros, leituras e a ação de compartilhá-los não tenha sido um desperdício de tempo. 
Eu, particularmente, me animo quando o assunto é livros e a conversa é agradável. <3

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Um poucochinho sobre livros, leituras e a ação de compartilhá-los [Parte I]

Que livros mudam nossa vida parece algo tão óbvio ou comentado que soa um pouco repetitivo e chato falar a respeito. Contudo, estive pensando sobre isso e, considerando também o momento em que estou – há quase um mês sem concluir leitura de ficção alguma – resolvi compartilhar a minha visão disso. Posso me equivocar, claro, e peço que gentilmente conversem sobre isso comigo, se for o caso. Não é aqui também um espaço de conversa? Também por isso pensei que, já que não tenho livros lidos recentemente para comentar – incrivelmente ainda não fiz a resenha de Crime e Castigo, e talvez nem a faça –, comentarei sobre eles. E se me perguntarem “por que resolveu falar disso agora?”, a resposta é simples: num momento meio triste, eis que uma moça-de-cabelos-curtos vem me devolver um livro que eu havia emprestado a ela. A tal obra é o incrível Caçando Carneiros, um dos que usei de base para o título do blog. Ela talvez não tenha notado, mas ter conversado comigo sobre essa obra sensacional e coisas afins me deu um ânimo fofo. Esse mesmo ânimo, horas após, é o que me faz querer demonstrar que ler é mais do que um ato solitário; é uma ação que pode ser compartilhada, discutida e alegremente mudar vidas.
Antes disso, queria comentar que talvez seja um preconceito comum de que pessoal de Letras lê muito. Pode até ser verdade quanto a ler bastantes teóricos, apenas. A leitura de livros ficcionais e de Literatura mesmo costuma ser meio renegada ou até feita apenas quando é obrigação do curso – felizmente, encontrei pessoas muito queridas, a Julya e a Helena do Leituras & Gatices, e a Tainan do Eu Curto Literatura, por exemplo, que leem bastante. Elas sabem o quanto ler é bom e é por isso também que têm seus blogs e compartilham esse mundo maravilhoso. É também por isso que eu, recentemente, criei este blog. Mas... O que isso tem a ver? Bem, pensem comigo: se em Letras, no curso em que mais se espera encontrar bons leitores, não é tão fácil encontrá-los, me pergunto quanto aos outros ambientes. Não digo que não tenham, não me interpretem mal. É só um ponto curioso; afinal, meu conhecimento de clássicos veio em sua grande maioria do meu contato com esses autores no curso ou em conversas – onde esses nomes de peso não são ditos no ambiente pesado da escola, em que qualquer autor antigo é visto como “leitura obrigatória para vestibulares” ou coisa do tipo –, onde a leitura é feita, boa parte das vezes, por interesse, por gosto, por prazer. 
Há tanto ramo se espalhando que poderia usar e discorrer para diferentes partes dessa conversa, mas tentarei focar no que me trouxe a compartilhar isso: a felicidade de uma conversa sobre livros. Fica claro que ler livros é sim uma ação solitária, no aspecto físico disso. É apenas você e o livro. Muitas pessoas param por aí, porque não tem com quem conversar sobre o que leu, seja por falta de conhecidos que leem ou que tenham o mesmo gosto literário. E isso em nenhum momento diminui a grandiosidade que é ler. Apenas talvez deixem de ter um adicional; que é poder trocar ideias sobre o que leu. E poder se animar com os livros quando não estás lendo coisa alguma, por qualquer motivo que seja, como eu estou agora. Porque um livro lido pode ser comentado muito tempo depois – claro que escrever uma resenha é diferente. Apesar dos detalhes fugirem da memória, fica uma impressão maior que a obra deixou. Como ficou para mim a melancolia e o drama do Murakami. Como ficou a leveza e o drama de A elegância do ouriço. Não sei se isso fica claro, mas espero que tenham me entendido sobre essa “impressão”. Essa sensação de algo, uma leitura ou mesmo um acontecimento na vida, que aconteceu há algum tempo, mas que ao lembrar nos traz alguma sensação diferente. Seja ela de algo bom ou de algo ruim.
Disseram uma vez, numa das aulas do curso de Letras que faço, não lembro em que disciplina, ou mesmo quem disse, mas que a pessoa sinta-se aqui citada, que a Literatura serve para nos colocar no lugar do outro. É nos colocando nesse outro espaço, nessa outra vivência, com o drama e vida alheios, que aprendemos mais sobre o mundo e sobre nós mesmos. A comparação, a análise, mesmo que inconsciente, é o que vai, aos poucos, nos mudando; mostrando-nos que há toda uma outra perspectiva. É lendo sobre um mundo pós-apocalíptico, ou de uma época muito antiga, que percebemos o quanto a tecnologia nos proporciona conforto, comodidade e acesso a informações tão diversas. Tudo isso pode ser notado sozinho, talvez, mas, a meu ver, é com a visão do outro, seja a leitura ou com a conversa, ou mesmo com a leitura de textos alheios na internet, que nos tornamos pessoas melhores. Que aprendemos tanto a melhorar a nós mesmos quanto a ajudar aos outros – aqui digo, principalmente, a ser uma pessoa mais educada, menos irritadiça etc. –; aprendemos, também, que o mundo pode ser bem ruinzinho. Principalmente, eu diria, que há os dois lados da história – quem sabe até um terceiro lado.

Enfim, geralmente, é com essas conversas – ou mesmo aquela conversa individual em que se pode pensar sobre o livro – que percebo se a obra é boa ou não, se a leitura é significativa. Se ela me muda, mesmo que um pouco. Ou se não muda, se ela consegue mexer comigo. Se me tira do local inicial de onde estava. Por exemplo, lendo História dos Treze, do Balzac, eu parei e pensei o quanto a contextualização é algo impressionante e que, às vezes, é deixado de lado. Depois dessa leitura, eu presto mais atenção a isso. Depois de ler Crime e Castigo, eu passei a ver que há outra visão dos criminosos e perceber, aquele meio óbvio que só notamos depois que lemos, que no crime há a importante parte do “peso na consciência”. Com as leituras de Murakami eu percebi que finais inconclusos e histórias simples são melhores do que aparentam, desde que o escritor saiba lidar com isso. Entre outras coisas se eu for parar para pensar. Com isso, queria deixar um questionamento, e sintam-se livres a comentar caso queiram: já leram alguma obra que mostrou a vocês uma visão diferente, que os tirou do seu espacinho aconchegante?