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quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Desumanização na Literatura, organizado por Massi e Nakagome



É inegável que a leitura possui diversos benefícios, como o aumento do vocabulário, o desenvolvimento da interpretação de textos... e a possibilidade de desenvolvermos empatia, de nos humanizarmos. Isto é, humanizar no sentido de permitir que possamos (re)conhecer o mundo, o que nos cerca e, principalmente, a nós mesmos – de modo a (indiretamente) nos tornarmos pessoas melhores para percepção do mundo pela visão que outras pessoas nos trazem; pela leitura crítica e que busca ser livre de preconceitos. As inúmeras realidades e a diversidade de situações, personagens e culturas que a literatura traz ao nosso alcance permitem uma visão abrangente (já que pontos de vistas diferenciados, em todos os aspectos, como econômico, social e cultural, exigem uma leitura disposta a "ouvir" o que o outro tem a dizer, nos fazendo praticar uma espécie de empatia e respeito pelo outro), perspectivas fundamentais para nosso desenvolvimento como seres humanos.

"[...] é possível vislumbrar que uma das formas de seduzir para o conhecimento é demonstrar as alegrias de descobrir a boa literatura, relacionando-a com o sonho, com o direito de sonhar, diminuindo, assim, o peso que o tratamento escolar, historicamente, tem dado aos textos literários e valorizando seu potencial de satisfazer às nossas necessidades humanas." (MASSI, NAKAGOME, 2015, p. 56).

A literatura, então, mais do que ser, em parte, um reflexo da realidade e da sociedade em que foi originada, serve como um meio de humanização. Justamente por esse leque de benefícios e aprimoramento que possui – claro que não se pode esquecer que a literatura é um meio, não "transmitindo" todos esses benefícios a quem só "decodifica as palavras", sendo necessária uma leitura efetiva, um leitor que se disponha a pensar, a aprender e se reconhecer e ao mundo como produtos imperfeitos num contínuo processo de transformação/aperfeiçoamento. A literatura, por meio da leitura, possui a tênue necessidade desse contato texto-leitor-sentido para se fazer "viva", para construir e contribuir com uma realidade mais repleta de sentidos, conhecimento, empatia e respeito; além de servir como uma atividade de lazer bem-aproveitada por muitos.

"A literatura, certamente, tem grande potencial humanizador. Entretanto, é preciso considerar que a relação entre literatura e humanização não é direta. Trata-se de uma relação oblíqua, facetada, justamente porque se assenta no contato sempre único do sujeito leitor (no qual a literatura pode atuar de modo subconsciente e inconsciente, de maneira difícil de ser avaliada) com um objeto - a literatura - que, construída a partir de convenções estéticas, reconfigura (subjetivamente) a realidade empírica." (MASSI, NAKAGOME, 2015, p. 10)

Esse mesmo ponto pode ser considerado ao se ler ou ouvir comentários de outras pessoas sobre as leituras feitas – sejam elas de obras que o ouvinte-leitor já leu ou não. Por possuírem bagagens e experiências diferenciadas, cada leitor terá uma interpretação, uma perspectiva única da obra. Isso é bem compreensível a quem já compartilhou conversas sobre livros (ou mesmos filmes, séries), como em um clube do livro ou pela leitura de resenhas e/ou ensaios. O simples fato de poder conhecer e quem sabe compreender uma perspectiva que não tenhamos tido já implica uma experiência valiosa de leitura. É uma possibilidade de expandir uma visão que poderia ter sido mais limitada; é aceitar ouvir a opinião alheia e aprender com ela.

"[...] em cada um deles, nós, leitores, podemos encontrar uma espécie de 'abrigo' contra a desumanização: um lugar (literário) hospitaleiro que fecunda a imaginação e permite pensar mais livremente." (MASSI, NAKAGOME, 2015, p. 9)

Uma obra que permite esse tipo de experiência é Desumanização na Literatura, organizada por Massi e Trindade (2015). Este livro engloba seis ensaios com análises de obras diferentes, de ambientes por vezes diversos, cujo foco é o mesmo: a humanização e a falta dela tanto na nossa história quanto na literatura. A leitura desses ensaios nos leva a pensar sobre a humanização e o quanto esta nos é necessária; e a melhor forma de perceber sua força é pela sua ausência. Isto é, "[...] a desumanização como processo que nega às pessoas a possibilidade de desenvolver-se plenamente em todas as suas potencialidades (em seus aspectos físico, educacional, artístico, profissional e político)" (MASSI, NAKAGOME, 2015, p. 181). No decorrer das páginas, nos deparamos com essa situação quanto aos escravos, aos prisioneiros, aos nordestinos e às vítimas de crimes (já que suas mortes eram como o "descarte" de objetos). Cada uma em suas particularidades, motivações, culturas e épocas diferenciadas, mas todas levando ao mesmo ponto e nos fazendo questionar como a humanização é algo frágil quando a utilização de poder na sociedade está envolvida.

"Talvez esse interesse esteja relacionado à consolidação de alguns valores e consensos, a exemplo daquele que define o ser humano como dotado de consciência de si enquanto sujeito histórico, consciência da sociedade em que está inserido e das estruturas de poder que a fundamentam." (MASSI, NAKAGOME, 2015, p. 181)

Logo no primeiro ensaio, Branqueamento e animalização: representações da desumanização do escravo, de Regina Claudia Garcia Oliveira de Sousa, já se pode ter uma ideia do que se encontrará nos ensaios seguintes, sobre o quanto isso impacta a sociedade e a forma como o poder influencia as pessoas. Nesse ensaio, há uma abordagem sobre o escravo na história e na literatura, mostrando que se precisa da desumanização para a existência da escravidão; isto é, o escravo como algo "não humano", que não pensa e não tem valores. Outro ponto abordado e que caminha junto à ideia de desumanização é o branqueamento como única forma de humanização do escravo negro, que é considerado um animal e assim retratado. Já que os "brancos" eram, então, os únicos considerados "humanos", racionais, com valores e educação, e o fato de um escravo e negro possuir alguma dessas características automaticamente o levava a se aproximar dos 'brancos'. Tudo isso sendo relacionado a obras que retratam esses ideais por meio da ficção. No caso desse ensaio: Calabar, de Agrário de Meneses; Gonzaga ou a Revolução de Minas, de Castro Alves; e Sangue Limpo, de Paulo Eiró.

"[...] o texto literário é um instrumento que possibilita a sensibilização ao denunciar, com a expressividade que lhe é peculiar, as bases de uma sociedade perversa, responsável pela desumanização em larga escala." (MASSI, NAKAGOME, 2015, p. 201)

Embora possa soar um pouco repetitivo, convém ressaltar o quanto a literatura pode auxiliar nessa percepção da visão alheia ao lhe expor essas perspectivas – esses personagens desumanizados pelos quais simpatizamos - por meio de algo considerado lazer. E não apenas vemos isso em ficção de prosa, como também em poesias, como nos é apresentado no segundo ensaio, Poesia contra o caos: humanização em João Cabral de Melo Neto e José Craveirinha, de Maria Nilda de Carvalho Mota. Nas análises de poemas vemos ambos os lados de situações de "conflito (social)", tanto dos políticos quanto dos povos subjugados.

"Muito embora distintos, evidente está que em ambos os contextos, tão ligeiramente narrados [...], resistir nos parece imperativo, dado que, de certo modo, a humanidade tanto de quem escreve quanto das personagens descritas e de quem lê é posta à prova durante o ato de leitura. Tratam-se de textos que nos obrigam a nos posicionarmos sob pena de, ao não fazê-lo, ao não nos solidarizarmos com as vítimas das brutalidades cometidas pelos 'bandos' armados, por exemplo, nos termos de Agnes Heller (2000), reduzirmos nossa própria humanidade, afastando-nos do 'gênero humano'." (MASSI, NAKAGOME, 2015, p. 59).

Como bem coloca a autora do ensaio, e em parte já mencionado acima, a leitura exige a nossa subjetividade para que haja sentido e, neste papel de leitor, mesmo sem querer, precisamos nos posicionar. Embora ser leitor possa soar em parte como algo passivo, nossa subjetividade, interpretação e ideologia nos posicionam a favor ou não de dada situação/personagem; não simpatizar com situações desumanizadoras nessas histórias implica (de certo modo) que, como humanos, nos falta um pouco de empatia.

"[...] Devemos, assim, estar atentos ao modo como facilmente racionalizamos o nosso 'instinto de autopreservação' que, muitas vezes, se constrói não com uma violência evidente, mas com a mera indiferença ao outro." (MASSI, NAKAGOME, 2015, p. 105).

Já em outros ensaios do livro, vemos que não só a cultura, etnia ou classe econômica são meios de propagar a desumanização; a morte e os espaços de aprisionamento também mostram essa faceta, como as penitenciárias. Como espaços de aprisionamento, refletem a desumanização gradual do indivíduo, afastando-o cada vez mais da sociedade e dos valores que deveriam ser adquiridos para uma vida mais digna, já que a falta de liberdade e controle do tempo limita a existência, podando-a lentamente. Já quanto à morte, podemos ver isso na análise de romances policiais místico-religiosos (no qual a morte é parte essencial para o enredo). Particularmente no ensaio a respeito dos romances policiais, é preciso dizer que eu não fazia muita ideia das características do gênero; de modo que a explicação das diferenças e aspectos principais me soaram curiosas e interessantes, mesmo não sendo o meu tipo de leitura. Perceber, então, que a forma como é encarada a morte dos personagens – tanto pelo narrador/obra quanto pelo leitor – revela características de humanização, no que se refere ao respeito pelo outro, pela vida, voltando a ressaltar que a literatura, indiretamente, expõe nossas visões acerca da utilidade de cada indivíduo na sociedade e o quanto a sua falta afeta ou não o seu redor.

"[...] o discurso literário é muitas vezes um meio eficiente para retirar essas máscaras ideológicas, possibilitando ao ser humano (re)conhecer-se enquanto ser humano e assim humanizar-se" (MASSI, NAKAGOME, 2015, p. 190)

Por outro lado, um dos ensaios também traz a perspectiva da possibilidade de humanização em ambientes que poderiam ser julgados como propagadores da desumanização. Curiosamente, por meio da escrita. Numa das obras analisadas, nota-se que a sobrevivência do personagem põe em questão a humanização e como a ausência dela pode ser algo maior do que apenas individual. Estar ou não dentro do que se considera como humano depende da visão geral da sociedade; é a junção de inúmeros sujeitos que criam essa rede maior (a sociedade), que aduba ou poda a humanidade de suas integrantes.

"De modos diferentes, eles mostram o descompasso entre os desejos do indivíduo e os limites da sociedade. Ao tratarem de um tema em comum, o encarceramento, as duas obras configuram-se como possibilidade de mostrar o que se esconde sob o tênue véu da naturalidade." (MASSI, NAKAGOME, 2015, p. 108).

Durante todos os seis ensaios nos deparamos com a análise de obras que retratam a desumanização, e constatamos que a literatura pode, também, funcionar como uma forma de combate, de resistência, "[...] na medida em que os relatos e retratos dos horrores configuram-se como não apenas um registro histórico dos acontecimentos, mas também como resposta a eles, como forma de protesto, de resistência à opressão, à desumanização." (MASSI, NAKAGOME, 2015, p. 83). Assim, pode-se dizer que a literatura passa a ser mais do que um reflexo da sociedade, ela age para e com a sociedade, um reflexo da história e uma voz que clama por ser conhecida, que exige uma atitude  mesmo que seja pequena, como a conscientização de alguns leitores. Parte disso se deve ao fato de que a literatura expõe a realidade e suas facetas por meio de um mundo organizado (no qual o caos está distante, mesmo que seja um reflexo da realidade que vivemos), já com suas argumentações e personagens/situações em ordem cronológica (na maioria das vezes), facilitando uma compreensão geral, envolvendo o leitor no decorrer das páginas.

“Sabemos que a narrativa é tanto mais eficiente na medida em que é capaz de envolver o leitor de modo intenso e total, emocionando-o e, no caso particular do fantástico, mantendo-o em suspense [...] quanto à natureza de determinado acontecimento.” (MASSI, NAKAGOME, 2015, p. 188)

Embora tragam assuntos bem conhecidos no que se refere à História, o que torna a leitura diferenciada e atrativa é justamente a sua relação com a literatura: pelo lazer e prazer de ler, temos contato com temas e narrativas impressionantes, tornando esse momento agradável em algo também construtivo para nós como seres humanos. A obra Desumanização na Literatura, uma reunião de ensaios que analisam diferentes obras (algumas mais conhecidas/recentes que outras), traz reflexões não só válidas como necessárias para pensarmos como encaramos o outro, como está o nosso respeito à vida alheia. É preciso dizer, porém, que, por serem ensaios, a leitura é um pouco mais densa e técnica, já que são análises de obras. Conhecer ou não as obras analisadas, aliás, não chega a ser necessariamente um fator necessário para a leitura. Mesmo não tendo as lido, a forma como são explanadas e analisadas faz com que essa falta não seja tão sentida – embora possa lhe fazer querer ler essas obras depois. Claro que isso implica que alguns spoilers estarão ali – quem tem problemas com eles talvez seja recomendado conhecer as obras primeiro. Por fim, vale dizer que esse livro está disponível gratuitamente no site da editora Letraria, de modo que se torna acessível a todos. ;)


MASSI, Fernanda; NAKAGOME, Patrícia Trindade (Org.). Desumanização na literatura. São Paulo: Me Parió Revolução, 2015. 280 p. 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Lucíola, de José de Alencar

Entre clássicos e contemporâneos, parece haver uma distinção um tanto grande, inclusive quando se trata de escolha de obras para o trabalho em sala de aula ou leituras para vestibulares – para estas, inclusive, já existe inúmeros textos abordando os pontos principais da obra, seu contexto histórico, perguntas e respostas de vestibulares já passados e até edições de livros que acompanham, ao final, algumas destas questões, além de textos complementares sobre autor e obra, e até guias de leitura para serem usados em sala de aula. Algumas dessas obras clássicas, conhecidas principalmente por caírem como conteúdo de vestibular, às vezes se propagam e exigem uma certa leitura obrigatória; sendo este um dos fatos pelos quais os estudantes procuram cada vez mais esses textos de apoio que dizem praticamente tudo sobre a obra. Apesar de alguns pontos negativos, não se pode negar que essa leitura obrigatória amplia o alcance da obra e propicia cada vez mais o contato com a leitura. Tanto se diz e se fala, que a obra quase tem uma análise completa pelos inúmeros sites da internet. Seja sobre os aspectos principais, seja sobre a leitura em si. Acaba que comentar esses textos se torna uma tarefa complicada; porque muito (ou quase tudo) já foi dito, e o que não foi é muito provável que seja algo muito específico ou referente a uma experiência de leitura – que envolve mais o leitor do que a obra em si. A mim, isso soa como uma pequena barreira, porque obras assim, clássicas, principalmente se são nacionais e bem-conhecidas, de tão comentadas, parecem que não necessitam de mais um texto repleto dos mesmos pontos de qualquer outro, além de que minha visão limitada nada tem a acrescentar. Principalmente se leio a obra por prazer, distração, e não estudo.

Partindo disso, porém, acabo por cair num beco sem saída, pois todas as obras – ou quase todas – são bastante lidas e comentadas, mesmo as que acabaram de ser lançadas. O que faz com que, nessa linha de pensamento, não faria sentido eu escrever sobre qualquer obra que fosse. Um tanto dramático, talvez? É possível. E ao mesmo tempo pode ter uma outra linha de pensamento, em que "não se está nem aí", que simplesmente se escreve um texto, sem nada a acrescentar e o joga por aí; alguém perderá tempo lendo. Não há certo ou errado. Até acho que já comentei aqui a respeito disso, porque cada vez mais parece que discorrer sobre uma obra se torna sem sentido, se, para a pessoa que escreve, não houver um outro motivo ali incluído. Digo, às vezes só me sinto satisfeita se coloco para fora o que penso de uma leitura que concluí; e esse é um dos meus motivos para escrever. Outro motivo meu é que não quero perder a prática da escrita, porque sei que ela é, mais do que talento ou qualquer coisa que possam dizer, uma questão de emoção e prática. Também considero nisso algo que aprendi na graduação: para se ensinar bem alguém a ler, precisa-se ler. O mesmo também pode estar ligado à escrita. Não que seja obrigatório, mas conhecer o processo na própria prática te permite um conhecimento que livros teóricos podem não te dar nunca. Enfim, cada pessoa tem seu motivo. Mesmo que o texto escrito só venha a se tornar mais um grão numa praia de textos.

Isto foi uma espécie de desabafo, talvez. Bem, junto a isso, e resolvida a levar a cabo as propostas que me impus com este blog (que tem ênfase nos livros clássicos), eis que resolvi escrever meu texto com minha visão limitada de Lucíola – apesar de soar repetitivo, não quero deixá-lo incompleto para quem ainda não conheça a obra –, e dizer o motivo pelo qual eu recomendo a obra, mas não a edição que eu li. Primeiramente, como cheguei a tal edição que li: devido às disciplinas de Literatura Brasileira da faculdade, já havia ouvido falar muito de José de Alencar (1829-1877) – apesar de eu sempre confundir o nome –, e uma colega – nesse momento infelizmente não lembro exatamente quem, já faz um tempo...  me disse que havia adorado Lucíola. A isso somou-se o fato de que recentemente comentaram essa obra comigo; bom, por que não ler, então, já que eu estava realmente querendo um livro pequeno? Pesquisando a obra online cismei com a edição de capa vermelha da Martin Claret; comprei-a. Infelizmente, só quando fui ler é que reparei nas margens pequenas. 💦 Um pequeno empecilho que me faz não recomendar essa linda edição; porque a tal margem fez com que eu precisasse "forçar" um pouco o livro para poder lê-lo e eis o que aconteceu com a capa:

Essa "linha" esbranquiçada do lado esquerdo do livro se formou porque eu talvez ficasse abrindo demais o livro; mas ou eu fazia isso ou teria dificuldades para ler. *sigh*
Essa é a margem que me incomodou um bocado. Geralmente não se precisa abrir muito para poder ler, mas se observar bem, sem "esticar" o livro, mal dá para ler. O lado direito está mais direitinho, o problema de fato é com esse esquerdo... 💧 

Bem, a obra é narrada em primeira pessoa por Paulo (olha só, quase meu xará!), um homem que, ao que sabemos, escreve cartas a uma senhora, e a história que lhe conta resulta em 21 capítulos – imagino que cada capítulo pudesse ser uma das cartas que ela diz ter recebido; mas, não tenho certeza. É esta senhora que reúne tal texto e lhe põe um título, Lucíola, justificando-o como um nome de inseto, que mesmo em meio a uma obscuridade total consegue iluminar-se. Este nome, como ela logo explica, parece sintetizar a essência da mulher que ele lhe retrata. A narrativa de Paulo, por sinal, surge no intuito de explicar à senhora o porque, em seu discurso, dispunha-se a ter tanta indulgência, clemência, com pessoas infelizes que são mal vistas pela sociedade; e acaba por lhe descrever "um perfil de mulher" (p. 23), que foi, para ele, uma grande marca e, também, certa influência. Em seu relato, viemos a conhecer sua história e a de Lúcia, uma das cortesãs mais 'almejadas', desejadas, no Rio de Janeiro, sendo dela o perfil mencionado. Aliás, antes de ler a obra, imaginava que seu nome seria Lucíola, mas vim a descobrir depois, no Recanto das Letras, que Lúcia é seu diminutivo, e significa luz e brilho; assim como Lúcifer. Interessante, não? Bem, Paulo a conhece logo no primeiro dia em que chega ao Rio de Janeiro – tendo vindo de Pernambuco –, e se encanta com sua imensa beleza, sem saber qual era sua 'posição' na sociedade; embora não muito diferente de hoje em dia, naquela época era uma imensa desonra se sujeitar a esta situação, considerada indigna e que lhe dá uma reputação manchada para sempre. A partir daí decorre-se a história de seu encantamento, e pode-se dizer, acho, amor pela moça; e vice-versa.

"De resto, a senhora sabe que não é possível pintar sem que a luz projete claros e escuros. Às sombras do meu quadro se esfumam traços carregados, contrastam debuxando o relevo e colorido de límpidos contornos." (p. 24).

Quanto ao enredo, resta pouco a dizer, dado ser, basicamente, a história dos dois. Encantado com Lúcia, Paulo busca se aproximar dela, embora lhe digam para, de certa forma, tomar cuidado, manter um distanciamento, enquanto conhece a Corte e o Rio de Janeiro em si. Porém, é a ingenuidade dele nessa nova cidade e seus hábitos que o faz "não desistir", o faz querer ainda mais conhecê-la e ser amante dela. Então decorrem encontros e desencontros etc.

Quanto à edição que eu li – da Martin Claret, que faz parte da coleção A obra-prima de cada autor – comenta sobre a obra, inclusive dizendo ser importante considerar o contexto da obra e o fato de que as mulheres retratadas não são mulheres reais, e sim idealizadas. Isso realmente é importante. Porque nesse romantismo, a idealização põe a mulher numa espécie de pedestal – e de lá meio que a mulher não faz coisa alguma; inclusive tem toda a questão de ser 'pura' e 'educada' –, a ser admirada e almejada. Lúcia, considerada um tanto excêntrica e cheia de caprichos, apesar de caminhar em direção a essa idealização, por meio do amor de Paulo – ah, a romantização... o que o amor não faz, não é? –, já começa longe de ser 'pura' e 'casta', afinal, embora cortesã possa ser uma palavra que soe bonitinha, ela vive numa vida devassa, vendendo o próprio corpo. Aliás, é interessante ver que ela se mostra uma personagem complexa e leva a uma dualidade questionadora – cuja explicação é dada mais ao final da história, lhe proporcionando ainda mais, a meu ver, um papel romantizado, de moça idealizada –, às vezes sendo descrita com um ar angelical, e, às vezes, com uma aura diabólica/maliciosa. É da descrição dela, de seus atos e o poder da sociedade sobre ambos que surgem diversos temas e críticas. A começar pelo 'poder' da sociedade de optar pela escolha alheia; a dizer o que é certo ou não. Exemplo seria o quão 'impura' é considerada uma cortesã, capaz de manchar a honra de famílias 'decentes'.

"Há aqui no Rio de Janeiro certa classe de gente que se ocupa mais com a vida dos outros, do que com a sua própria; e em parte dou-lhes razão; de que viveriam eles sem isso, quando têm a alma oca e vazia? Essa gente já sabe quem tu és, que fortuna tens, quanto ganhas, onde moras e como vives." (p. 77).

Outros temas da obra, além da prostituição e devassidão da Corte do século XIX, são a dualidade entre corpo e alma, amor físico e espirital e os preconceitos da época. A análise de Lucíola no site Guia do Estudante expõe bem esses pontos; e a resenha do site Recanto das Letras também traz uma visão bem detalhada da obra e da figura de Lúcia. Recomendo ambos os textos, caso se interessem (mas aviso, a quem isso possa desagradar, que podem ter spoilers). Inclusive o texto do Guia do Estudante comenta o fato do não distanciamento do narrador com a história, mesmo estando contando-a alguns anos após sua história com Lúcia ter terminado – o que se torna muito mais evidente e considerável quando se sabe como essa história termina. Digo, o narrador expõe os fatos como se os estivesse vivenciando, quase que no presente; mas sabe-se que tem um distanciamento, por comentários seus, em vagas análises dos acontecimentos, dirigidos à senhora.

"Mas a senhora lê e eu vivia; no livro da vida não se volta, quando se quer, à página já lida, para melhor entendê-la; nem pode-se fazer a pausa necessária à reflexão. Os acontecimentos nos tomam e nos arrebatam às vezes tão rapidamente que nem deixam volver um olhar ao caminho percorrido." (p. 38).

Disso acho interessante mencionar o estilo do autor; e só após ter comentado com a Helena foi que realmente compreendi que ler uma tradução de clássico nunca é a mesma experiência de ler um clássico no original – e aqui falo de textos em língua portuguesa, porque, né... –, dado que grande parte das traduções, mesmo adaptando a linguagem e tornando-a mais próxima de como seria àquela época, não será e não proporcionará uma experiência de leitura de textos da época na língua originalmente escrita. De início, admito que o estilo de Alencar me surpreendeu um pouco, talvez por fazer tanto tempo que não lia algo parecido, cujas frases parecem utilizar de ordens diferentes; aliás, até o uso das vírgulas me pareceu um tanto diferente (lendo ficava pensando como seria tirar ou colocar uma vírgula aqui e outra ali). Não sei se isso se deve ao fato de que José de Alencar, como menciona um dos textos complementares da edição, tentava se distanciar da linguagem utilizada por Portugal, mas foi interessante pensar depois que achei seu estilo bem distinto, um tanto diferente de Machado de Assis, outro autor do qual já li algumas obras. Esse estranhamento que tive ao início, porém, após a leitura de algumas páginas, foi sumindo ao passo que fui me acostumando ao estilo do autor, de modo que a leitura se tornou um tanto fluida.

"Sucede com as feridas d'alma o mesmo que às feridas do corpo; é quando elas esfriam, que a dor se torna aguda e lancinante." (p. 92).

Sobre a edição, apesar das horríveis margens pequenas – que não estão presentes dessa forma em outros volumes da mesma coleção –, é preciso dizer que os textos complementares são bem interessantes, tendo, inclusive, um guia de leitura e algumas questões de vestibular (com gabarito). Sobre o guia de leitura, admito que me senti uma má leitora ao ver que algumas das questões eu não saberia, e ainda não sei, responder. A pior para mim foi: "Em que momento se dá o clímax do enredo de Lucíola?" (p. 153). E eu sinceramente não sei; seria quando sabemos o que acontece com ela ou quando descobrimos sobre Maria da Glória? Ou é ou dois? Ou nenhuma dessas opções? 💦Se souberem, agradeço se me disserem.

Enfim, a obra é considerada um romance urbano e um retrato de uma sociedade, cujos aspectos, em parte, ainda aparecem atualmente. Um ponto particularmente curioso da história é ver essa idealização, a 'redenção' e o encontro com a paz somente por meio desse lado espiritual em contato com a natureza, com a purificação. Bem, mesmo idealizado, e que em alguns momentos eu realmente não compreendi algumas atitudes dos personagens, é uma leitura agradável e que vale a pena. ✌

"Não sei o que sou, sei que começo a viver, que ressuscitei agora." (p. 129).

ALENCAR, José de. Lucíola. 3. ed. São Paulo: Martin Claret, 2011. 157 p. (Coleção a obra-prima de cada autor; 100).

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Aos quatro ventos, de Ana Maria Machado

Para quem já costuma escrever, às vezes talvez nem pare para pensar tanto no assunto, mas para quem começa é sempre um mistério até encontrar o caminho e sua própria forma de escrita. A ambos, aliás, essa busca é incessante, pois todo texto é uma nova descoberta (de certa forma), sempre um algo novo a dizer. Dependendo do que se pretende, pelo gênero ou pela mensagem, tem-se que pensar em como ele será, quem o lerá. Se é um comentário, uma resenha, possui um público mais sério ou mais descontraído. Se pode escrever gírias, usar abreviações ou qualquer outro aspecto importante. Às vezes fazemos isso sem nem pensar, automaticamente. Numa conversa pelo WhatsApp, por exemplo, é um estilo; escrevendo um trabalho para a faculdade, é outro. E se for reparar em todos os pequenos detalhes, é uma observação que talvez não tenha fim. Porque a linguagem é isso, um infinito repleto de possibilidades.


Quando tomei Aos quatro ventos na mão, numa feira do livro em Criciúma, não imaginei que a história fosse valer tanto a pena; só queria conhecer a escrita de Ana Maria Machado. Um nome que vim a conhecer nas aulas de Literatura e que deixou um ar de que poderia ter muito mais a se conhecer dela. O livro ficou parado na prateleira por alguns meses até que, querendo ler um livro pequeno, o escolhi. Depois de O pianista (que virou favorito) não esperava grande coisa da próxima leitura; o que acabou sendo uma surpresa agradável. Principalmente porque, e isso pode sim ser preconceito, mas, convenhamos, algumas obras nos fazem pensar isso, é uma obra nacional. A única outra obra nacional que resenhei aqui, Pretérito Imperfeito, mostrou que esse preconceito tem que acabar, que não é só clássico nacional que vale a pena ser lido. Por sinal, não sei se A. M. M. é clássico, mas acho que não. Autora de mais de cem livros, de acordo com a orelha de Aos quatro ventos, ela já ganhou vários prêmios e mostrou que consegue criar uma história simples, mas repleta de pequenas informações que edificam a obra com uma contextualização impressionante.

"Incompetência é uma doença geral, que se alastrou por toda parte, de braços dados com a mediocridade que campeia e ocupa os postos de comando nos mais variados setores." (MACHADO, 2014, p. 111).

Datada da década de 90, a obra, aos poucos, traz elementos da época e alguns até mesmo anteriores, abordando questões como política, economia, e fatos históricos como a Ditadura e o acidente nuclear de Chernobyl de uma forma a dar à obra um momento histórico bem marcado, mas de modo sutil, sem ficar forçado ou superficial. Então, sim, a obra traz assuntos fortes, mas se engana se pensarem que a leitura é pesada. Bem pelo contrário. Ademais, outros elementos fazem com que saibamos que a história ocorre numa época mais delimitada – além da marcação de datas, claro –, como a menção à datilografia e ao uso de disquetes. Eu me lembro dos disquetes, parecia tão moderno...

Porém, mais do que a contextualização e a marcação de uma época, Aos quatro ventos é uma obra que representa a descoberta da escrita por um homem que não tinha ideia de quão prazeroso isso podia ser. Ao mesmo tempo, é também uma história de obsessão, de uma possível maldição e "de amores, que se manifestam pela paixão dos amantes, pela amizade que atravessa oceanos, pela palavra, pela vida e pela liberdade" (trecho da contracapa da obra). A história possui apenas dez capítulos (sim, bem pouquinho mesmo), e neles se intercalam dois narrados, sendo um em terceira pessoa, narrando os acontecimentos que envolvem a família de Guto, o protagonista, e a família da irmã de sua esposa Vanda (professora de Ciências), a Lélia (uma livreira ❤). São bem poucos personagens que realmente "aparecem" na história (só essas duas famílias, que são compostas, ambas, por um casal e um filho). Os outros personagens mencionados são decorrentes de lembranças, e em grande parte são decorrentes dos capítulos narrados em primeira pessoa por Guto, um empresário que descobre que escrever é quase que mágico. Por meio das reflexões dele surgem questões impressionantes, algumas das quais nunca havia parado para pensar, e apontam que a evolução da tecnologia pode, sim, ter influência na escrita  e isso na década de 90, imagina agora! Com internet, redes sociais, mil e uma coisinhas etc.

"Escrever em computador tem essas vantagens. É extremamente higiênico, não se guarda sujeira. Pode ser a escrita da dieta - corta gordura. Ou a escrita do acúmulo, evidente, se o freguês preferir ir acrescentando sem parar. Depende de quem usa.
    Será que alguém já estudou os efeitos do processador de textos na literatura contemporânea? Estudar mesmo, para valer. Se é que já existe uma certa distância para isso, talvez ainda seja prematuro.
     Mas é óbvio que existe uma relação íntima entre o desenvolvimento tecnológico e a evolução da linguagem artística. No caso da literatura, não tenho a menor ideia de como isso se processa, nunca tinha pensado nisso antes, nunca fui muito chegado nesse negócio de escrever." (p. 28).

Tudo isso começa, olha só, por causa da obsessão – quem quiser pode usar a palavra amor aqui – dele pela esposa. E, por alguns motivos, isso se torna um projeto de fim de ano da sua empresa, com todas aquelas questões ambientais, ecológicas etc., cujo foco é o beija-flor. O que explica esse bichinho fofinho na capa da obra (aliás, não achei a capa muito bonita não; bem mais simbólica que bonita), que acompanha os peixes-voadores (esses aparecem logo no primeiro capítulo e depois somem acho). Apesar de não ser um trabalho seu, ele acaba tomando a escrita do projeto para si, e, nisso, vem a sua descoberta viciante. Entusiasmado, começa, cada vez mais, a ocupar seu tempo com a escrita; inicialmente a mão, com os lápis, depois com o processador de textos (acho que é um computador, me corrijam, por favor). A cada dia que passa isso começa a absorvê-lo mais e mais. De início, sua esposa se encanta com a mudança, pois finalmente ela passou a ter uma certa liberdade que nem sabia que sentia falta. Seu marido possessivo, então, passou a deixá-la "de lado" para escrever.

"Tem que ter medo é de si mesmo. Do excesso de confiança. Do delírio de poder. Da obsessão." (p. 44).

Porém, conforme essa nova obsessão vai se alargando, Vanda começa a notar que não é uma obsessão saudável, que aos poucos o está fazendo se afastar do trabalho e dos amigos; da vida social num todo. Por um lado, pode-se notar como qualquer obsessão ou vício pode, se não controlado, se tornar isso, um empecilho, deixar a pessoa "cega". E pode ser uma das interpretações iniciais. Por outro lado, não dá para deixar de dizer que quem leva a escrita a sério, de verdade, pode acabar realmente tendo esses momentos de isolamento, de fuga completa do convívio social, e que escrever também serve como uma válvula de escape, um momento em que as emoções podem explodir em palavras escritas, ser, até mesmo, um alívio. As reflexões sobre escrita que podem ser feitas a partir da leitura dessa obra são várias e não convém mencionar tudo aqui (é muita coisa mesmo). Além disso, há outras coisas relacionadas que também aparecem, como ser leitor, e leitor de ficção.

"- É que ficção (principalmente quando é boa) dá às pessoas essa oportunidade única que é a de viver outras vidas - respondeu Lélia. - Estar em outras situações, outros ambientes, enfrentar outros dilemas que jamais se apresentariam iguais na própria vida do leitor, tomar decisões éticas cruciais, julgar os diversos lados de uma questão. E em segredo, sem testemunhas, com toda a liberdade para imaginar como quiser." (p. 115).

Enfim, apesar de toda a maravilha da obra, senti que algumas partes ficaram meio fracas, mas nada que faça a leitura não valer a pena; vale sim, recomendo! É uma obra rápida de ler, dois dias e puf, acabou. Gostaria de comentar sobre o final, mas talvez seja spoiler demais; refere-se a tal maldição ligada ao passado que a contracapa menciona. Quem sabe, com a leitura da obra, não descubram que maldição é essa? Fiquei bem surpresa, embora não sei se gostei ou não disso...


"Hoje eu sei que os homens são só uma poeira nesta casca do planeta, 
cisco que vai de um lado para o outro e mal arranha a superfície." (p. 31).

MACHADO, Ana Maria.  Aos quatro ventos. 3. ed. Rio de Janeiro: Obejtiva, 2014. 146 p.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Pretérito Imperfeito, de Gustavo Araujo

Por vezes me pergunto se a chave da felicidade não reside na ignorância.”

Geralmente, é muito difícil definir algo, porque tudo e qualquer coisa será avaliado a partir de nosso pequeno conhecimento. E, como Dostoiévski bem apontou em Memórias do Subsolo, mesmo nosso lado racional, nossa razão, depende do que já obtivemos de conhecimento do mundo. Quando menciono “definir algo” não me refiro apenas a coisas, e, sim, também a objetos, situações, momentos e pessoas. Tudo depende de nossa bagagem ao pensar sobre determinada coisa, que resultará em nossa interpretação e opinião. Vendo assim, não é estranho dizer que toda transição é uma descoberta, todos os erros possuem certa base. Seja a passagem da fase infantil à adolescência, seja o conhecimento do desconhecido que pode ser uma pessoa próxima. Mesmo os sentimentos dependem disso, e até mesmo eles sofrem certa alternação. Um breve exemplo: depois do medo, vem (geralmente) o alívio; assim também é com a tristeza, que em algum momento (ou não, há exceções) abre espaço para sensações mais agradáveis e libertadoras.
Com a curiosidade não é diferente. Ansiar pelo final do livro, para saber como a história termina e então ter a curiosidade saciada (ou não) também acaba levando a outra sensação. É como um ciclo sem fim, que só termina com a morte. Ler Pretérito Imperfeito, do Gustavo Araujo, me fez pensar um pouco nisso; a pensar mais um pouco sobre a dor do luto e a morte, e aqui não posso deixar de associar e de mencionar a leitura de Confissões do Crematório, que aborda tão bem nossa relação com o fim da vida; a pensar sobre a relação entre pais e filhos, principalmente o lado paterno, o que me fez lembrar de outra leitura recente, No Mar; e, no decorrer da obra, me lembrei de uma leitura que fiz no ensino fundamental de uma obra italiana, que muito me encantou. Esta obra em questão chama-se Pai Patrão, do escritor Gavino Ledda, que acredito que li na sétima série, mais ou menos; sim, faz tempo, tanto tempo que mal me lembro da obra (infelizmente). O ponto é que esse livro italiano me marcou devido a essa relação de pai e filho que também aparece – e achei isso muito curioso – na obra do Gustavo Araujo; um pai severo, trabalha no campo e não permite, de certo modo, ao filho que este estude e faça algo diferente na vida. Mas essa parte, aliás, é apenas um pedaço do enredo de Pretérito Imperfeito.

A obra traz três personagens principais, cujas histórias se intercalam. Primeiramente, somos apresentados a Antônio, ou Toninho, um menino de treze anos que perdera a mãe, Dona Catarina, de quem sente muita saudade, lhe restando apenas o pai, com quem não tem um relacionamento muito afetivo – um reflexo da própria história com o vô do menino, Francisco. Vale considerar que, graças à mãe, ele nutre um interesse enorme por pássaros, o que lhe dá algo com que se ocupar na ausência do pai e, de certo modo, suportar melhor a tristeza da perda. Além disso, Toninho é um menino solitário, sem amigos e que, infelizmente, tinha um relacionamento excepcionalmente ruim com as aulas de Língua Portuguesa e Literatura; ele detestava principalmente o fato de ler em voz alta na classe, pois tinha dificuldades e acabava gaguejando. Embora não do mesmo modo, me simpatizei com essa dificuldade de Toninho, pois eu também a tinha na escola – embora meu problema fosse muito mais associado à timidez/vergonha.

“É claro que sempre sentia falta da mãe. Todos os dias tinha saudades dela, mas havia ocasiões em que a ausência de Dona Catarina lhe atingia o peito como uma força tão inesperada quanto desproporcional, inundando-o de saudade.”

A outra protagonista é Cecília, uma menina de treze anos, também, mas que difere grandemente de Toninho, seja pela condição econômica – dado que ela é de uma família abastada –, seja pela personalidade. Ou, também, pelo fato de que ela gosta muito de ler – sendo ela o motivo de menções a grandes autores da Literatura Brasileira; se achei interessante um livro nacional mencionar clássicos nacionais? Bastante, por sinal, apesar de não ter lido grande maioria das obras citadas. De início, algo nela não me agradou, não sei dizer exatamente o quê. No decorrer da história, porém, essa sensação desagradável foi embora. A história de Cecília é apresentada principalmente por suas cartas destinadas a uma amiga chamada Carol, em que relata sua situação familiar – um tanto “tensa”, eu diria. Devido a uma investigação, o pai de Cecília ‘foge’ e promete voltar para buscar tanto ela quanto a mãe, quando ele resolvesse sua situação, mas elas deveriam permanecer como que “enclausuradas”, sem contato com o resto da cidade. Apesar disso, é numa pequena volta pelo bosque, contudo, que Cecília encontra Felipe (o Toninho, para quem ela se chama Mariana).
Para ambos, a amizade que surge é quase como um refúgio de todo o resto. Sem as barreiras que teriam caso se conhecessem na escola ou mesmo na cidade, os dois se tornam amigos rapidamente, aproveitando a companhia do outro. A meu ver, a amizade dos dois é aquela amizade ‘bonita’, sem preconceitos e que, de fato, lhes permite aproveitar o tempo e ‘amenizar’ os problemas familiares. Embora por questões diferentes, ambos mostram que a relação de pais e filhos é difícil, e que as crianças – ou adolescentes – acabam, por vezes, criando uma imagem do pai que não condiz com a realidade. E, voltando ao que mencionei acima, a questão de que não se conhece o todo aparece novamente, o que não deixa de ser um vácuo ou um espaço de desconhecimento entre eles. Ou, até, um espaço que dificulta o diálogo e/ou compreensão.

“— É engraçado como isso acontece, não é mesmo? Quando somos crianças, enxergamos nossos pais como infalíveis. São modelos de perfeição. São aqueles que nos protegem, de quem nos orgulhamos. São nossos heróis, representam a virtude. São os mais fortes, os mais bonitos, os mais inteligentes.
Toninho nunca teve essa imagem do próprio pai, mas achou melhor ficar quieto e deixar Mariana falar.
— Só que chega uma hora — prosseguiu ela — que essa imagem se desfaz. O rei perde a coroa, o príncipe vira sapo. Começamos a enxergar as fragilidades, os defeitos, as manias, as maldades.”

Não é difícil de entender e simpatizar com essa ideia de que com a passagem do tempo e o amadurecimento, vamos percebendo detalhes que em outros tempos não perceberíamos. Passamos, de certo modo, a conhecer o lado que não víamos de nossos familiares, cuja mente de criança não permitia enxergar. Vamos nos permitindo descobrir e compreender o outro; a associar o passado com o presente e, ao mesmo tempo, dissociá-los. Ademais, essa relação me faz pensar nas crianças que, infelizmente, acabam crescendo 'enclausuradas', sem conhecer, de fato, a realidade, imaginando e praticamente enxergando nos pais os "modelos de perfeição"; o que só vem a mudar com a adolescência, o contato na e fora da escola e com o trabalho, quando passam a ver que há um outro mundo para além do espaço de casa. Enfim, é uma questão complexa.

E, por fim, o terceiro personagem principal é o pai de Toninho, Seu Pedro. Além do conhecimento de sua relação com o filho, somos apresentados ao seu passado, desde criança ao desentendimento com o pai, o desejo por uma vida diferente e busca por essa mudança. As partes relacionadas ao Seu Pedro, a meu ver, são as que mais possibilitam que vejamos como o livro tem um teor, digamos, pesado. Até mesmo é a que permite que observemos sobre como agimos com o outro e a mando de outrem. Isso porque, embora as partes de Cecília e Toninho estejam, também, imbuídas de questões importantes e até ‘pesadas’ – como o fato de Toninho lidar com a morte da mãe –, possuem, de certo modo, um olhar mais sutil, com foco maior nos personagens do que no que passa exatamente ao redor – não deixando de considerar, como aponta o próprio prefácio, de como o ambiente afeta as crianças/adolescentes.
Em certo ponto da leitura, fiquei me questionando se o título teria relação, de certa forma, com o tempo verbal, aquele da gramática mesmo. Indicando, possivelmente, além de um passado que é imperfeito, ações que estão no passado, mas que percorrem por períodos mais extensos de tempo, ações não tão pontuais. O que me parece que faria sentido com a história. Não seria uma brincadeira curiosa com o nome do livro? Ao mesmo tempo, essa ligação de que comento foi, também, o que me deixou com um ponto de interrogação ao terminar a leitura. Isto, aliás, me lembrou de Outra Volta do Parafuso, de Henry James – talvez quem já tenha lido ambas as obras entenda minha sutil comparação.
Num geral, a leitura foi uma surpresa encantadora, com uma leitura fluida e uma história emocionante, que conseguiu me deixar curiosa quanto ao final, aliás, convenhamos, esse final... spoilers. Enfim, diria, até, que cumpriu com minhas expectativas. Havia me interessado pelo livro desde que ouvi – e li – a Helena comentando a respeito (aliás, recomendo a leitura da resenha dela). Que surpresa não foi o autor ter me proposto parceira para a leitura da obra, o que me permitiu dar uma outra chance à literatura nacional; aliás, obrigada! Esta foi a primeira leitura que conclui em 2017, e recomendo a quem estiver um pouco desanimado com a literatura nacional, como eu estava, ou que queira aproveitar uma história bonitinha, com certa dose de ‘drama’. 
Terminando este livro, fiquei com vontade de reler Pai Patrão...  

ARAUJO, Gustavo. Pretérito imperfeito. Campo Grande, MS: Caligo, 2015. 286 p.