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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Um experimento amoroso, de Hilary Mantel

Em meus discursos pode chegar a soar repetitivo minha menção de como acho as pessoas incríveis. Por suas ações, seus pequenos gestos, palavras, olhares e sorrisos, por suas visões/perspectivas curiosas do mundo e, também, entre outras coisas, pela importância que têm. Nem tudo é feito conscientemente; às vezes sequer sabemos a importância ou a diferença que fazemos até que nos digam. Situação igual seja para algo positivo seja para algo negativo. Seja um ato simples, um cumprimento, seja algo mais 'denso', como um motivo para alguém seguir em frente. Seja como for, acontece, porém, que nem sempre conseguimos ver esse lado incrível das pessoas, porque não as conhecemos. Sequer conhecemos a nós mesmos, às vezes. Mesmo convivendo por anos e anos – ou a vida toda. Algumas pessoas, fortes, densas, costumam causar um impacto maior na vida alheia, às vezes na forma de um grande alívio e auxílio, às vezes numa forma confusa de sufoco, que se mistura com sensações por vezes ainda mais confusas e difíceis de explicar como raiva, inveja e desprezo. A protagonista de Um experimento amoroso, a jovem Carmel, acaba sendo influenciada por uma pessoa assim. Mesmo na ausência, a presença que ela teve trouxera uma perspectiva diferente no decorrer de seus anos escolares, uma visão diferenciada, que lhe impunha sensações diversas, de dever, de companheirismo e, num misto de distanciamento, devido a seu modo cada vez mais independente e "regrado", de confusão, causada pelos ditos de sua mãe, além de sensações de repulsa, nojo e raiva. Sem saber, via-se sufocada, queria distância e não lhe permitia tal 'regalia'. E apesar de esta ser a parte que a mim mais interessou na obra inteira, por incrível que pareça, não é tratada como "foco".



Numa síntese, a obra conta a história de Carmel, Karina e Julianne, três moças distintas que acabam por estudar juntas no Holy Redeemer – um colégio prestigiado – e optam pelo mesmo pensionato durante suas respectivas graduações. Não é, porém, uma história de amizade que perdura no decorrer dos anos, mas sim relacionamentos que surgem, se afastam, e eventualmente se reencontram, sem jamais voltar a ser como já foram. Durante a leitura, próxima à metade da história, já comecei a me questionar sobre o que a orelha me fez esperar da obra. Parecia um pouco distinto até ali, pois não há um foco no "romance" ou tanto na liberdade que possuem, embora isso muito se contraste com a infância da protagonista, de família católica muito religiosa. A liberdade, os relacionamentos abertos e os perigos disso, que a contracapa parece apontar, são, na verdade, parte integrante principalmente da segunda metade em diante, quando o foco da narrativa volta-se ao momento em que as personagens estão na universidade, no qual há mais personagens e uma visão mais clara do início da vida adulta das garotas do pensionato. Bem, se separar a obra em duas partes, eu gostei muito mais da primeira, apesar de que mesmo esta só possui seu desfecho nos últimos capítulos, que integrariam a segunda parte. 

“Talvez eu devesse lamentar minha juventude desperdiçada, ter pena de mim mesma por ter-me divertido tão pouco. Mas carpe diem é um sentimento vazio, agora que todos nós vivemos tanto tempo.” (p. 130).

Em grande parte até a metade da obra, Carmel nos apresenta aos poucos sobre sua infância, como conheceu Karina – aos quatro anos de idade, sendo ela basicamente sua vizinha  e Julianne – já por volta dos dez anos, no Holy Redeemer – e como é ou era o relacionamento entre elas. Também demonstra um pouco sobre sua inserção na escola, seu contínuo descobrimento da situação de Karina e a imensa influência que ela fazia sobre si – ainda que parte disso tenha sido "imposto" pela mãe de Carmel, que de algum modo se impressionava com a pequena Karina, em parte devido à situação da família dela. Enquanto Carmel é vista como uma criança que não necessita fazer nada na casa ou nos deveres "por ter quem o faça", Karina é o oposto: tendo os pais trabalhando em muitos turnos e não parando muito tempo em casa, todo o serviço é deixado para ela, que desde pequena aprende a "se virar" e cuidar de tudo sozinha, inclusive com as compras do mercado. Isso, contudo, não a impede de ser uma criança estudiosa, inteligente; de certo modo, isso a faz criar uma certa dependência de si mesma, certa confiança e, ao mesmo tempo, um denso pessimismo. Por outro lado, enquanto a mãe da protagonista quase que inveja/admira aquela criança tão responsável e esperta, Carmel não faz o mesmo, dado que sente uma influência diferente, por vezes querendo se distanciar desta. Em posições diferentes, ambas são submetidas a seguir o que lhes é imposto, e ambas sentem os impactos disto, embora a autora não exponha a nós, leitores, a visão da Karina, a vida que ela levou e como a encarou. O pouco que sabemos é da visão e compreensão da narradora, que pouco sabia da densa vida de sua 'vizinha'. Possível spoiler: mesmo quando é mencionada a situação da mãe de Karina, que aparentemente adoeceu e se tornou incapaz de trabalhar, não é dito o que de fato ela tem ou como isso realmente impactou Karina.

“Agora que estávamos estudando o sistema feudal, eu estava numa posição melhor para compreender a perspectiva de Karina sobre a vida. Ela acreditava em hierarquia e nível, e tinha uma profunda descrença na igualdade dos homens. Karina acreditava em autopreservação através de artimanhas, em poupar o futuro, através da conservação de seus esforços e de nunca desperdiçar o fôlego. Ela não acreditava em justiça, ou pelo menos agia como se a justiça fosse um luxo; ela não acreditava em manifestar suas opiniões. Karina era lenta e persistente em seus esforços e punha mãos à obra.” (p. 121).

Aos poucos, quando ambas passam a estudar em Holy Redeemer, Carmel começa a se distanciar de Karina. Nesse distanciamento tem-se só pequenos fragmentos do que Karina foi se tornando; forte – nos dois sentidos que essa palavra pode ter aqui – quieta, isolada etc. Contudo, essa distância – que não era física, pois mesmo após se formarem na escola passaram a morar no mesmo pensionato – pesava, numa densidade que só é compreendida a partir das vidas que elas levaram, do (des)conhecimento que uma tem da outra. A isso é interessante considerar a época em que a história se passa, durante a década de 60 e início da década de 70. Uma época que ao mesmo tempo que permitia liberdades ainda esbanjava uma visão religiosa, conservadora e em mudança; passando-se na Inglaterra e em Londres, vê-se também uma questão cultural, embora numa proporção bem menor. Um ponto abordado na obra é a crescente utilização da pílula anticoncepcional pelas moças; o que lhes dá uma liberdade que, se não há cuidado, causaria-lhes grandes problemas. Nisso, é claro, há um pequeno debate sobre o aborto. Isto, porém, é um foco do que separaria como a segunda parte da obra.

“E apesar disso, a proximidade com Karina, ver sua figura andando com passos pesados em meio ao tráfego e à fuligem de Londres, a presença de seu nome em nossas bocas – todas essas coisas me levavam desamparada de volta ao passado, as recordações me puxando com a força e a firmeza lisa de uma corrente de aço, cada elo duro e reluzente e obstinado, de maneira que fui arrancada para fora de meu corpo frágil, pálido, de dezoito anos, e forçada a viver, como vivo hoje enquanto escrevo, dentro de minha pessoa aos dez anos de idade, a pele rosada mas rígida de medo, no ônibus a caminho do exame de admissão para o Holy Redeemer.” (p. 89).

A história toda é narrada muitos anos após os acontecimentos citados, e sabe-se disso logo na primeira página, em que Carmel comenta sobre uma notícia de jornal sobre Julia, sua companheira de quarto no pensionato, uma psicoterapeuta, que tratava de garotas com anorexia. Aliás, essa narrativa, que é um olhar para o passado, tendo uma visão do futuro, já se podendo pensar e refletir sobre o ocorrido, sempre me cativa, e com esta obra não foi diferente. Já havia lido algo da autora, O gigante O'Brien [The Giant, O'Brien – 1998], que foi publicado poucos anos depois de Um experimento amoroso [An Experiment in Love – 1995], mas sem dúvidas há grandes distinções entre elas. Diria que em Um experimento amoroso a escrita é mais elaborada, parece ter um ar mais fluido, complexo, que traça a história com nós mais caprichados e enfeitados, esboçando um retrato da vida das jovens, ainda que deixando muito a ser dito, muito nas entrelinhas, por assim dizer. Não que a outra obra não seja boa, é bastante interessante. Porém, há todo um ar diferente – o eixo da obra é distinto –, no qual o protagonista mescla uma imagem intelectual com uma objetificação, num enredo também pesado e distinto, cujo foco é menos o protagonista que a atmosfera do tempo em que se passa, dos personagens além dele. Nesta há um teor diferenciado e que me atraiu mais, as (possíveis) protagonistas, embora não mais densas, são mais detalhadas e exploradas. Como O'Brien, Karina é uma personagem que me interessou bastante, mas ambos, apesar de importantes, são retratados como que a distância, um reflexo do que são. Apesar desse detalhe, não posso deixar de mencionar como a narrativa de Mantel é fluida, mas pesada, com certo ar melancólico e vago, com detalhes que parecem não ter importância, mas que unidos esboçam bem a cena, as personagens e suas ações, e proporcionam, ao todo, uma obra impressionante. Certamente poderia ter sido mais explorada em alguns aspectos, e realmente senti falta de compreender melhor o que aconteceu com a Karina em todos aqueles anos. Mas este é um dos detalhes que, às vezes, faz com que a narrativa em primeira pessoa nos deixe certo vazio: não podes saber o que o narrador não sabe.

“Uma vez que se começa a lembrar – não é assim? – uma imagem dá origem a uma outra; elas correm em sua cabeça para todas as direções, animais fugitivos desentocados de seus abrigos. A memória não é um carretel, não é um filme que se possa rodar para trás e para a frente de acordo com a vontade: é aquele relance de pele surpreendida, o escorregar de uma seda entre os dedos, a textura duplicada de cabelo ou osso. É uma imagem, borrando, apanhada em movimento: como numa de minhas fotografias de família, antes que as câmeras se tornassem tão simples e seguras que qualquer idiota poderia capturar o momento.” (p. 16).

Numa espécie de vai e vem sobre fatos da época da universidade e da época da escola, vê-se sobre o que, de fato, é a história. Num primeiro momento, incluindo nisso a força da passagem do tempo e das mudanças decorrentes disso, tem-se a relação de Karina e Carmel e suas respectivas mães. Em relação às meninas, ainda entra o âmbito escolar, os estudos e a pressão de não fracassar (principalmente no que se refere ao Holy Redeemer). Por outro lado, nesse ínterim, tem-se a relação de Carmel com a própria mãe, religiosa e exigente. Apesar de obediente, Carmel aparentemente não tinha uma relação muito próxima com ela; o que parece ser reforçado com as constantes menções de sua mãe sobre Karina e sua família – cuja história é um mistério. Já aqui vê-se relacionamentos diferentes, amores diferentes, familiares. O outro lado da história é visto já mais próximo ao olhar do tempo do pensionato, em que o convívio naquela espécie de liberdade proporciona dificuldades e relacionamentos diversos – além de que se vê uma distinção inclusive na condição financeira de cada uma e do que o pensionato, aparentemente precário, lhes oferece. A dependência da família se torna algo distante fisicamente, embora a pressão de cada costume familiar continue pesando sobre as moças. Em reflexões breves, mas fortes, sobre a liberdade, o trabalho, a juventude e a vida num todo, é interessante ver as outras experiências que cada uma das moças retira dali. Um dos exemplos é a visão de que muitas ali, apesar de estudarem muito, no fim só queriam encontrar um marido; uma revolta sobre isso num determinado capítulo faz uma divisória dos pensamentos da época – embora ainda presente nos dias de hoje –, e não é surpreendente a palavra feminismo surgir umas duas vezes no decorrer da obra. Porque a narradora vê esses dois lados da moeda, e com uma visão já de seu futuro, expõe sua discordância com algumas das moças com quem conviveu. Enfim, toda a obra abarca diferentes visões do amor e ambos os lados que eles englobam. O que me fez pensar que o título, embora abarque bem certa parte da obra e faça sentido, não abrange o que poderia ser sua essência. Porque esse experimento, mesmo que envolva o amor, em suas diferentes formas, não é amoroso, num todo, porque é também sofrido, marcado por desentendimentos, mágoas e distâncias. Não é um romance água com açúcar, nem mesmo um livro leve. Pode ser experimento de ou no amor, mas não é amoroso – que querendo ou não é muito mais associado à ternura e ao afeto do que à ideia de ser relativo ao amor num todo.

“Agora, não gostaria que pensassem que esta é uma história sobre anorexia. [...] Digamos então que é uma história a respeito de apetite: o apetite em seus vários aspectos e dimensões, suas perversões e decadência, suas estranhas inversões e recusas. Isto é o suficiente por enquanto.” (p. 66).

Num geral, não posso dizer que a edição seja ruim, mesmo não tendo gostado do título, da capa e da contracapa – gostei da orelha, ao menos. Talvez o problema tenha sido apenas minha expectativa ou a minha visão da história que não fechou com o foco que deram; talvez eu não tenha focado no que eles consideraram principal. Falha minha, fazer o quê... Quanto à edição, ainda, só tenho que comentar que vi alguns poucos errinhos de revisão, mas que não chegam realmente a incomodar. Quanto à história, tenho que concordar em parte com a fala da contracapa, que diz que lamentaremos a obra ter acabado tão rápido. Acontece, é claro, que isso ocorre do fato de o final ter um desfecho muito rápido, num ritmo um tanto diferente do que a história conduz. Isso é, dos dez capítulos, apenas no último tem-se o que se pode chamar de clímax e desfecho, ambos no mesmo capítulo. É um acontecimento um tanto chocante, o que faz com que, sim, terminou rápido demais! Porque poderia muito bem ter explorado mais aquele acontecimento, o que veio depois, ou ao menos algumas reflexões a mais do tal incidente – comentar mais disso seria spoiler. Mesmo assim, a obra é encantadora. Enfim, apesar de tudo isso, não sei se recomendo... Ainda que seja um livro impressionante, minha recomendação fica apenas àqueles que se interessam em conhecer alguma obra da autora ou que ficaram curiosos pela obra.

“Estava na hora de fazer planos para o futuro; eu oscilava entre pensar que poderia fazer qualquer coisa com minha vida e que não poderia fazer nada.” (p. 137).

MANTEL, Hilary. Um experimento amoroso. Tradução de Ana Deiró. Rio de Janeiro: Record, 1999. 240 p.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Demian, de Hermann Hesse

“Hoje sei muito bem que nada na vida repugna tanto ao homem do que seguir pelo caminho que o conduz a si mesmo.” (HESSE, 2006, p. 62).

Quando penso em narrativas, refiro-me à forma como a história se desenvolve, ao modo como o autor escreve. Talvez seja errado nomear isso de narrativa, não sei ao certo. Mas é a isso que chamo de narrativa. Parto do princípio de que antes de uma boa história, o livro precisa de uma boa narrativa. Porque é por meio da narrativa que o leitor irá construir sua leitura, entrar ou não no universo ali criado. É por ela que nos sentimos atraídos ou não pela história. Além de ser a narrativa um dos elementos utilizados para se definir se um livro é difícil ou não. Se há uma linguagem rebuscada, se é muito simples ou, talvez, incompreensível. Para mim, é parte essencial da obra, principalmente porque tenho apreço por livros que nos fazem pensar, que conseguem nos prender nos pensamentos do personagem, em suas reflexões, sejam elas sobre coisas banais ou de tanta complexidade que há a necessidade de uma releitura para o seu entendimento. Claro que há, aqui, o meu gosto por narrativas, há quem prefira textos objetivos e deteste enrolações e descrições. No entanto, gosto de pensar que são essas narrativas mais elaboradas que conseguem passar o quanto a linguagem consegue ser maravilhosa e encantadora. Um dos motivos de eu evitar alguns livros contemporâneos, afinal, é justamente esse; a narrativa tão objetiva e por vezes fraca – Celeuma? Talvez... Bom, claro que entram outras questões para esse estilo narrativo, o público, a temática, a bagagem literária... O comércio... Acho que me entenderam.
É por esse ponto que quero apresentar Demian, do escritor Hermann Hesse (1877-1962). A leitura da obra é incrível, tanto pela história, quanto, e principalmente por isso, pela narrativa de Herman Hesse. Já havia lido O lobo da estepe, e havia me encantado com a narrativa também, mas acho que a achei ainda melhor em Demian. Não é uma leitura que se diga difícil pela escrita, talvez seja difícil se buscarmos entender tudo que ali está escrito – e que vamos acrescentando ao ler –, pois no decorrer da obra parece que há um aumento na densidade de conteúdo apresentado. É um livro encantador e que, talvez por ser um bildungsroman, nos mostra a vida de Emil Sinclair desde sua infância, passando pela juventude e seu auge, que, pelo que entendi, é entre os dezoito e vinte anos. Ademais, não acho que teria capacidade para comentar com qualidade esse livro, pois muitas das questões ali apresentadas me parecem longe de minha compreensão. De modo que talvez percebam que minha visão da obra pode ser um tanto superficial demais. Ao mesmo tempo em que poderia deixar de comentá-lo, sinto que preciso apresentá-lo e mesmo conversar sobre essa excelente obra.

O livro, pelo que pode ser entendido pelo prefácio, é um pouco autobiográfico, mas todo livro não o é? Um dos “elementos”, não sei como definir isso, ou, talvez, uma das questões que o livro abarca, é a divisão entre o mundo luminoso, bom e puro e o mundo obscuro. Essa divisão, de início, parece-me bem fácil de delimitar, a leitura nos mostra uma divisão aparentemente bem clara, ao passo que parece ir se tornando mais densa conforme paramos para pensar. Para mim, essa foi uma temática parecida com a que abordei numa aula de estágio no Ensino Médio neste primeiro semestre de 2016, de modo que quando a questão começou a se ampliar, eu já retomei o que havia pensado anteriormente. O que eu quero dizer com isso?
Bem, pensemos que o bom seja o lado que nos leva a Deus – independente de acreditar ou não nisso, pensemos como o livro nos traz (ou mais ou menos nos traz, já que falo a partir da minha visão do livro) –, e o lado ruim, mal, o lado que nos leva ao Diabo. É um confronto entre luz e trevas, como se a separação fosse assim, óbvia e bem delimitada. Mas acredito que todos sabemos que não se pode responder dessa forma, tão simplesmente. Não existe pessoa perfeita, de modo que todos passamos tanto pela luz quanto pelas trevas. Na verdade, somos uma união desses dois lados, uma junção que nem sempre é clara e nítida. Até porque definir bom e mal partiria para o que é certo e errado, ao mesmo tempo em que isso depende de quais valores morais etc. estão a nós dispostos, e aos quais seguimos. Bem, desse ponto em diante não tenho capacidade de comentar muito, mas fica então a reflexão a vocês.

Afinal, e quanto à história?
Apesar de o título ser Demian, e Max Demian ser de fato um dos personagens principais da história, o narrador e protagonista é Emil Sinclair, um rapaz cuja família é religiosa e considerada por ele como pura, fonte e parte do mundo de luz. No primeiro capítulo, principalmente, vemos essa divisão dos dois mundos e como Sinclair fica transitando entre eles e pensando sobre isso. Era algo muitíssimo importante a ele, além de ser uma questão que o guiara por toda a trajetória de sua vida – a que temos conhecimento, pelo menos. O primeiro conflito da obra – se é que posso chamá-lo assim – dá-se na infância de Sinclair, em que ele se encontra na passagem entre os dois mundos.

“Pela primeira vez saboreei a morte. Tinha um gosto amargo. Pois a morte é nascimento, é angústia e medo ante uma renovação aterradora.” (p. 32).

As questões, um tanto existenciais, começam desde o início, em sua tenra idade, dando conversa com temas não tão leves, como a morte. Mas não a morte no que recorrentemente associamos como a morte física, mas a morte de parte de si, morte do que se até então considerava como seus valores morais etc. Morte de quem fomos e nascimento de quem estamos nos tornando a ser. Ademais, não é isso algo que, de um modo ou de outro, sendo em maior ou menor grau, pelo qual passamos em nossas vidas, uma ou outra vez? A passagem de uma fase à outra, a mudança de quem somos, o crescimento e conhecimento de si próprio...
Enfim, é a partir e depois desse primeiro conflito que Demian passará a exercer uma influência surpreendente em Sinclair. Max Demian surge como um novo aluno, sendo diferente, uma pessoa cuja idade não parece ser bem definida, um indivíduo desgarrado da sociedade por vontade própria, mas que nem por isso se considera de certo modo superior. Porque eis que o próprio orgulho é um problema. Mas essa é só uma visão superficial. É Demian quem irá ver em Sinclair a característica que permeia alguns indivíduos da sociedade, além de mostrar que o rapaz pensa mais do que é capaz de expor ao mundo.

“Vejo que pensas mais do que podes exprimir. Mas vejo também que nunca viveste completamente aquilo que pensas, e isso não é bom. Somente as ideias que vivemos é que têm valor.” (p. 80).

Mesmo podendo fugir um pouco do que se está falando no livro, parece-me que podemos associar com nossa sociedade atual, pensar, com essa parte isoladamente, nos indivíduos que pensam muito e o refletem, mas não o mostram. (E voltamos à questão das aparências engarem?). Pode-se pensar, também, num excesso de teoria que não faz sentido sem a prática – e vemos bastante isso quando estudamos licenciatura, porque é um debate feito devido sua imensa importância na formação do sujeito. No entanto, convém mencionar para que não se caía no ledo engano de pender mais para um lado do que para o outro, pois ambas, teoria e prática, são essenciais para um conhecimento significativo e produtivo.

“- [...] A maioria das pessoas vive também em sonhos, mas não nos próprios, e aí é que está a diferença.- Sim, é bem possível – murmurou. – Talvez o importante seja apenas saber em que sonhos vivemos...” (p. 135).

Outro ponto que considero importante comentar, mesmo que brevemente, é que o livro não é só sobre a formação e desenvolvimento de Sinclair, pois parece ir além disso, envolvendo o mundo que o cerca, sendo este, também, o nosso. Não está nosso próprio desenvolvimento num contato constante com o mundo, e sendo da vivência com ele que criamos e moldamo-nos? E eis que a sociedade entra nesse círculo, pois é com ela que convivemos, seja direta ou indiretamente, pois sempre há o risco da socialização vir a ser inevitável – e quantas pessoas já não se deixaram levar por grupos que lhes levaram a caminhos inadequados? Acompanhando o desenvolvimento de Sinclair, vemos ambos os lados, ambos os mundos, e uma busca infindável por aquilo que mais lhe apraz.
Ademais, tenho de comentar que a edição que li possui alguns errinhos, algumas frases que poderiam possuir umas modificaçõezinhas para tornar mais compreensível, coisas que imagino serem da tradução e/ou revisão, mas que também acho que devem ter sido arrumadas na última edição. Ou assim espero. Aliás, como podem ter reparado na foto acima, está escrito, na capa, "venda proibida", pois bem, explico-lhes que peguei o livro emprestado de uma escola estadual de Içara; é mais ou menos a mesma situação do livro de Balzac, disponibilizado à escola pelo Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE). Por sorte, encontrei-o lá este mês (<3), digo isso pelo fato de que Demian  foi a leitura escolhida do mês de julho para o Clube do Livro que participo. Depois de já estar com o livro em mãos, encontrei-o numa livraria, com a capa amarela bonitinha, que pode ser vista abaixo – não é difícil encontrar esse livro –, e quis comprá-lo, pois desde que li a resenha do blog O epitáfio – aliás, recomendo que leiam a resenha dele – fiquei encantada com a capa, mas, graças à pessoa da minha irmã, comprei outro livro no lugar (O gigante enterrado~ *-* Conhecem? Parece muito bom!). Pois bem, gostaria de poder comentar a capa, mas talvez isso pudesse ser spoiler e tirar um pouco da graça da leitura. Basta dizer que o desenrolar da metade em diante, embora um pouco mais denso, talvez, é surpreendente.


As imagens das capas eu retirei do Skoob. Reparem na grande diferença que há de uma capa a outra. Particularmente adorei a primeira da fileira de baixo, do lado esquerdo.

Enfim, espero que tenha sido uma visão não muito distante da obra, e que tenha conseguido demonstrar que, apesar de conter muitas coisas, é uma leitura que vale muito a pena. Resta apenas pensar, é Demian um ouriço? Fiquei meio na dúvida; embora a capa me gerou curiosidade, pois não me fazia sentido, e comparando-a com outras fez menos sentido ainda, ela está tão relacionada à história que é difícil comentar (aliás, eu achava que era uma fênix, mas, pelo que entendi, é um gavião). Então, por essa visão, não, não é, pois embora a capa não reflita toda a grandeza da obra, reflete grande essência dela – é difícil uma capa fechar inteiramente com a obra, não? Contudo, se analisarmos ser de um autor um pouco desconhecido, geralmente associado a esse amontoado de questões que traz, de certo onirismo, com a possível crítica e tudo o mais... Além de capas que podem não atrair novos leitores... Bom, nesse caso eu consideraria um ouriço. Mas deixarei a decisão desse em aberto. Leiam e digam-me suas opiniões. =)

HESSE, Hermann. Demian. 37. ed. Rio de Janeiro: Record. 2006. Tradução e prefácio de Ivo Barroso. 188 p.