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quarta-feira, 29 de março de 2017

O problema de não ler /&/ A violoncelista, de Michael Krüger

"Todo mundo sempre deixa algo de si para trás, porque esse algo não cabe mais em sua vida; no entanto, nem por isso, tem a sensação de ter ficado mais pobre." (KRÜGER, 2002, p. 209).

Uma onda de desânimo fez com que eu abandonasse a leitura de A violoncelista por alguns dias, até enfim voltar a tomar a obra em mãos. Não porque o livro seja ruim, não o é; até achei-o muito bom, apesar de eu ler uma boa parte sem entender direito, porque não são temas que eu entenda (história, música...). Soma-se isso ao fato de eu lê-lo aos poucos, o que contribuiu para que eu fosse esquecendo e me distanciando da obra mesmo durante a leitura. Nesse momento em que larguei o livro, por bastante tempo pensei na questão de abandonar as obras, do momento certo para ler determinado livro e, até mesmo, se há um problema em passar dias sem pegar um livro na mão. É provável que alguns pensem logo que não sou uma "verdadeira" leitora, ou leitora compulsiva, e não sou mesmo. Por sinal, antes disso, por algum tempo fiquei pensando que, na verdade, eu leio pouco mesmo agora tendo tempo até de sobra. Parecia um problema, até. Como pode alguém ficar dias sem ler e se considerar um leitor?! Pois é, o problema é justamente esse exagero. Posso ler um livro por ano e continuar sendo uma leitora; e não deveria me sentir mal por isso. Ou posso ler 50, ou 100 ou 200, como algumas pessoas inacreditavelmente conseguem; e me sentir da mesma forma que alguém que leu dez. Só que a qualidade é sempre melhor que quantidade, então se é um ou mil livros por ano, não faz diferença, desde que nesse um eu tenha feito uma boa leitura. Isso parece um pouco com uma desculpa, mas no fundo é o que importa, não é?

Sim, eu sei que seria mais certo se fosse um violoncelo, mas não tenho um. Então é meu violino mesmo que eu não sei tocar. ❤

Para tentar me animar e voltar à leitura de A violoncelista, busquei resenhas da obra, pois quem sabe um elogio à obra me servisse de impulso; infelizmente, não encontrei sequer uma resenha, seja positiva, seja negativa, seja neutra. E, até esse momento, eu estava decidida a não escrever sobre essa obra, justamente devido a esse meu distanciamento com a obra e tudo o mais. Só que não encontrar nenhuma resenha de um livro tão bem escrito é algo muito triste; e um fato que descobri ao final da minha leitura me fez decidir que, mesmo sendo vago e impreciso demais, iria expor um pouco num texto sobre essa obra que parece um pouco esquecida nas páginas de pesquisa do Google das quais me servi. Portanto, a opinião aqui é realmente imprecisa, mas serve apenas para dizer: leiam, que vale a pena.

"E era evidente também que aquele homenzinho magérrimo escolhera a mim para recontar sua vida e advertir a não amontoar tanta coisa começada e inacabada, de que não pudesse me livrar depois." (KRÜGER, 2002, p. 97).

Uma das surpresas da obra de Michael Krüger, percebida nos primeiros capítulos, é que o livro praticamente não dispõe de um diálogo sequer traçado com travessão ou aspas. Exatamente, sem as marcas habituais a que estamos acostumados; pode parecer estranho e confuso, mas serviu muito bem à narrativa. Claro, para quem já leu Saramago pode facilmente associar a ele e ter uma ideia de obra nesse estilo. Só que há uma diferença: Krüger tem uma narrativa mais "precisa" e facilmente identificável de quem está falando o quê, ao contrário do que se vê em Ensaio sobre a cegueira. Vale considerar, aliás, que há pouquíssimas falas no decorrer do livro. O que dá ao livro um tom de narração de memórias tão bonito que chega a ser admirável. (Isso não foi irônico). Esse estilo empregado é fluido e, de certo modo, possui uma elegância que me encanta. Ou pode ser porque prefiro histórias assim, cujo personagem num determinado presente relata suas memórias do passado, nem sempre em ordem cronológica.

A obra, narrada em primeira pessoa, conta a história de um compositor na faixa dos cinquenta anos que deseja produzir uma ópera baseada nos textos do russo Ossip, projeto que, aparentemente, ninguém o apoia; apesar de ter produzido algumas músicas com teor mais clássico (imagino que não esteja errado dizer assim), sua fama decorreu das trilhas que produziu para programas de TV. Seu projeto sobre Ossip, contudo, parece cada vez mais longe de ser concluído quando ele recebe a visita de Judit, a filha de sua amiga Maria. O protagonista sequer sabe quem é o pai de Judit, e possui suas dúvidas sobre possivelmente ser seu pai. Não bastando isso, a jovem parece imitar as ações de Maria, fazendo-o relembrar de seu passado, e, também, parece virar sua rotina de cabeça para baixo, retirando-o de seu sossego.

"Cada um tem seu espaço, a ele destinado. Às vezes, é necessária uma vida inteira para encontrá-lo e, ainda assim, não ocupá-lo, porque, de tanto procurar, ficou-se cego para suas qualidades." (KRÜGER, 2002, p. 161).

Interligado ao enredo, vê-se muitos apontamento sobre arte, música e mesmo um pouco sobre história. Apesar de que não tenho base suficiente para comentar a respeito, parece-me certo dizer que o escritor tem bastante conhecimento sobre o que apresenta, pois seus questionamentos são por vezes intrigantes. A isso junta-se um drama sobre o personagem cuja vida parece desbotada, mas que não o percebe e continua rememorando a vida e pensando nas suas obras produzidas.

"A arte afastara o homem da sociedade; a partir do momento em que todo mundo passara a poder tornar-se artista, a profissão se fizera almejada e o Estado ou a sociedade haviam sucumbido àquele fato, criando mais e mais institutos a conduzir a massa de aspirantes a artistas, todos autodenominando-se artistas formados depois de oito semestres de estudos, mas desprovidos da mais vaga ideia do que fosse a arte." (KRÜGER, 2002, p. 121).

A obra toda intercala, em sua narrativa encantadora, uma espécie de drama, uma confusão e diversos questionamentos que fazem com esse não seja um livro apenas sobre o reencontro com o passado e os obstáculos que fazem com que a vida aos poucos possa ser desbotada se não tomarmos cuidado. Embora alguns pontos pareçam ter ficado um pouco vago (ou talvez eu não tenha entendido bem, pode ser), de modo que me parece que poderia haver um aprofundamento ainda maior acerca de alguns personagens, não posso deixar de pensar que no estilo narrativo não havia necessidade de se explicar o que foi deixado de lado. Porque alguém pensando na sua vida não fica explicando tudo nos mínimos detalhes para si mesmo; nós, leitores da vida alheia, é que temos essa curiosidade que parece que necessita ser preenchida. Por um lado, quem sabe uma releitura e uma mente posta para funcionar consiga preencher esses espacinhos vagos. Por outro, fica o pensamento de que às vezes os autores realmente não querem nos dar todas as respostas/explicações de bandeja (um resquício de maldade, será?).

"Quanto mais mergulhava na leitura sobre os campos de concentração, mais impossível foi se fazendo para mim conceber uma música que transmitisse sequer um eco longínquo de todo aquele sentimento." (KRÜGER, 2002, p. 174).

Só ao término da leitura, nas últimas cinquenta páginas, foi que comecei a pensar que a história parecia um pouco "real" demais em alguns pontos, o que me fez recorrer ao Google e descobrir que Gyorgy, nome do narrador-protagonista, é o nome de um compositor que de fato existiu e, olha só!, até mesmo foi compositor da trilha do filme 2001 (cujo livro ainda lerei). Bom, é isso, sei que ficou um pouco vago, mas espero que tenha servido ao propósito.

"Em todas as demais horas que passo acordado,
entrego-me a comparações, o que faz com que, várias vezes ao dia,
sinta-me tentado a jogar a toalha." (KRÜGER, 2002, p. 20).

KRÜGER, Michael. A violoncelista. Tradução de Sergio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 213 p.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Demian, de Hermann Hesse

“Hoje sei muito bem que nada na vida repugna tanto ao homem do que seguir pelo caminho que o conduz a si mesmo.” (HESSE, 2006, p. 62).

Quando penso em narrativas, refiro-me à forma como a história se desenvolve, ao modo como o autor escreve. Talvez seja errado nomear isso de narrativa, não sei ao certo. Mas é a isso que chamo de narrativa. Parto do princípio de que antes de uma boa história, o livro precisa de uma boa narrativa. Porque é por meio da narrativa que o leitor irá construir sua leitura, entrar ou não no universo ali criado. É por ela que nos sentimos atraídos ou não pela história. Além de ser a narrativa um dos elementos utilizados para se definir se um livro é difícil ou não. Se há uma linguagem rebuscada, se é muito simples ou, talvez, incompreensível. Para mim, é parte essencial da obra, principalmente porque tenho apreço por livros que nos fazem pensar, que conseguem nos prender nos pensamentos do personagem, em suas reflexões, sejam elas sobre coisas banais ou de tanta complexidade que há a necessidade de uma releitura para o seu entendimento. Claro que há, aqui, o meu gosto por narrativas, há quem prefira textos objetivos e deteste enrolações e descrições. No entanto, gosto de pensar que são essas narrativas mais elaboradas que conseguem passar o quanto a linguagem consegue ser maravilhosa e encantadora. Um dos motivos de eu evitar alguns livros contemporâneos, afinal, é justamente esse; a narrativa tão objetiva e por vezes fraca – Celeuma? Talvez... Bom, claro que entram outras questões para esse estilo narrativo, o público, a temática, a bagagem literária... O comércio... Acho que me entenderam.
É por esse ponto que quero apresentar Demian, do escritor Hermann Hesse (1877-1962). A leitura da obra é incrível, tanto pela história, quanto, e principalmente por isso, pela narrativa de Herman Hesse. Já havia lido O lobo da estepe, e havia me encantado com a narrativa também, mas acho que a achei ainda melhor em Demian. Não é uma leitura que se diga difícil pela escrita, talvez seja difícil se buscarmos entender tudo que ali está escrito – e que vamos acrescentando ao ler –, pois no decorrer da obra parece que há um aumento na densidade de conteúdo apresentado. É um livro encantador e que, talvez por ser um bildungsroman, nos mostra a vida de Emil Sinclair desde sua infância, passando pela juventude e seu auge, que, pelo que entendi, é entre os dezoito e vinte anos. Ademais, não acho que teria capacidade para comentar com qualidade esse livro, pois muitas das questões ali apresentadas me parecem longe de minha compreensão. De modo que talvez percebam que minha visão da obra pode ser um tanto superficial demais. Ao mesmo tempo em que poderia deixar de comentá-lo, sinto que preciso apresentá-lo e mesmo conversar sobre essa excelente obra.

O livro, pelo que pode ser entendido pelo prefácio, é um pouco autobiográfico, mas todo livro não o é? Um dos “elementos”, não sei como definir isso, ou, talvez, uma das questões que o livro abarca, é a divisão entre o mundo luminoso, bom e puro e o mundo obscuro. Essa divisão, de início, parece-me bem fácil de delimitar, a leitura nos mostra uma divisão aparentemente bem clara, ao passo que parece ir se tornando mais densa conforme paramos para pensar. Para mim, essa foi uma temática parecida com a que abordei numa aula de estágio no Ensino Médio neste primeiro semestre de 2016, de modo que quando a questão começou a se ampliar, eu já retomei o que havia pensado anteriormente. O que eu quero dizer com isso?
Bem, pensemos que o bom seja o lado que nos leva a Deus – independente de acreditar ou não nisso, pensemos como o livro nos traz (ou mais ou menos nos traz, já que falo a partir da minha visão do livro) –, e o lado ruim, mal, o lado que nos leva ao Diabo. É um confronto entre luz e trevas, como se a separação fosse assim, óbvia e bem delimitada. Mas acredito que todos sabemos que não se pode responder dessa forma, tão simplesmente. Não existe pessoa perfeita, de modo que todos passamos tanto pela luz quanto pelas trevas. Na verdade, somos uma união desses dois lados, uma junção que nem sempre é clara e nítida. Até porque definir bom e mal partiria para o que é certo e errado, ao mesmo tempo em que isso depende de quais valores morais etc. estão a nós dispostos, e aos quais seguimos. Bem, desse ponto em diante não tenho capacidade de comentar muito, mas fica então a reflexão a vocês.

Afinal, e quanto à história?
Apesar de o título ser Demian, e Max Demian ser de fato um dos personagens principais da história, o narrador e protagonista é Emil Sinclair, um rapaz cuja família é religiosa e considerada por ele como pura, fonte e parte do mundo de luz. No primeiro capítulo, principalmente, vemos essa divisão dos dois mundos e como Sinclair fica transitando entre eles e pensando sobre isso. Era algo muitíssimo importante a ele, além de ser uma questão que o guiara por toda a trajetória de sua vida – a que temos conhecimento, pelo menos. O primeiro conflito da obra – se é que posso chamá-lo assim – dá-se na infância de Sinclair, em que ele se encontra na passagem entre os dois mundos.

“Pela primeira vez saboreei a morte. Tinha um gosto amargo. Pois a morte é nascimento, é angústia e medo ante uma renovação aterradora.” (p. 32).

As questões, um tanto existenciais, começam desde o início, em sua tenra idade, dando conversa com temas não tão leves, como a morte. Mas não a morte no que recorrentemente associamos como a morte física, mas a morte de parte de si, morte do que se até então considerava como seus valores morais etc. Morte de quem fomos e nascimento de quem estamos nos tornando a ser. Ademais, não é isso algo que, de um modo ou de outro, sendo em maior ou menor grau, pelo qual passamos em nossas vidas, uma ou outra vez? A passagem de uma fase à outra, a mudança de quem somos, o crescimento e conhecimento de si próprio...
Enfim, é a partir e depois desse primeiro conflito que Demian passará a exercer uma influência surpreendente em Sinclair. Max Demian surge como um novo aluno, sendo diferente, uma pessoa cuja idade não parece ser bem definida, um indivíduo desgarrado da sociedade por vontade própria, mas que nem por isso se considera de certo modo superior. Porque eis que o próprio orgulho é um problema. Mas essa é só uma visão superficial. É Demian quem irá ver em Sinclair a característica que permeia alguns indivíduos da sociedade, além de mostrar que o rapaz pensa mais do que é capaz de expor ao mundo.

“Vejo que pensas mais do que podes exprimir. Mas vejo também que nunca viveste completamente aquilo que pensas, e isso não é bom. Somente as ideias que vivemos é que têm valor.” (p. 80).

Mesmo podendo fugir um pouco do que se está falando no livro, parece-me que podemos associar com nossa sociedade atual, pensar, com essa parte isoladamente, nos indivíduos que pensam muito e o refletem, mas não o mostram. (E voltamos à questão das aparências engarem?). Pode-se pensar, também, num excesso de teoria que não faz sentido sem a prática – e vemos bastante isso quando estudamos licenciatura, porque é um debate feito devido sua imensa importância na formação do sujeito. No entanto, convém mencionar para que não se caía no ledo engano de pender mais para um lado do que para o outro, pois ambas, teoria e prática, são essenciais para um conhecimento significativo e produtivo.

“- [...] A maioria das pessoas vive também em sonhos, mas não nos próprios, e aí é que está a diferença.- Sim, é bem possível – murmurou. – Talvez o importante seja apenas saber em que sonhos vivemos...” (p. 135).

Outro ponto que considero importante comentar, mesmo que brevemente, é que o livro não é só sobre a formação e desenvolvimento de Sinclair, pois parece ir além disso, envolvendo o mundo que o cerca, sendo este, também, o nosso. Não está nosso próprio desenvolvimento num contato constante com o mundo, e sendo da vivência com ele que criamos e moldamo-nos? E eis que a sociedade entra nesse círculo, pois é com ela que convivemos, seja direta ou indiretamente, pois sempre há o risco da socialização vir a ser inevitável – e quantas pessoas já não se deixaram levar por grupos que lhes levaram a caminhos inadequados? Acompanhando o desenvolvimento de Sinclair, vemos ambos os lados, ambos os mundos, e uma busca infindável por aquilo que mais lhe apraz.
Ademais, tenho de comentar que a edição que li possui alguns errinhos, algumas frases que poderiam possuir umas modificaçõezinhas para tornar mais compreensível, coisas que imagino serem da tradução e/ou revisão, mas que também acho que devem ter sido arrumadas na última edição. Ou assim espero. Aliás, como podem ter reparado na foto acima, está escrito, na capa, "venda proibida", pois bem, explico-lhes que peguei o livro emprestado de uma escola estadual de Içara; é mais ou menos a mesma situação do livro de Balzac, disponibilizado à escola pelo Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE). Por sorte, encontrei-o lá este mês (<3), digo isso pelo fato de que Demian  foi a leitura escolhida do mês de julho para o Clube do Livro que participo. Depois de já estar com o livro em mãos, encontrei-o numa livraria, com a capa amarela bonitinha, que pode ser vista abaixo – não é difícil encontrar esse livro –, e quis comprá-lo, pois desde que li a resenha do blog O epitáfio – aliás, recomendo que leiam a resenha dele – fiquei encantada com a capa, mas, graças à pessoa da minha irmã, comprei outro livro no lugar (O gigante enterrado~ *-* Conhecem? Parece muito bom!). Pois bem, gostaria de poder comentar a capa, mas talvez isso pudesse ser spoiler e tirar um pouco da graça da leitura. Basta dizer que o desenrolar da metade em diante, embora um pouco mais denso, talvez, é surpreendente.


As imagens das capas eu retirei do Skoob. Reparem na grande diferença que há de uma capa a outra. Particularmente adorei a primeira da fileira de baixo, do lado esquerdo.

Enfim, espero que tenha sido uma visão não muito distante da obra, e que tenha conseguido demonstrar que, apesar de conter muitas coisas, é uma leitura que vale muito a pena. Resta apenas pensar, é Demian um ouriço? Fiquei meio na dúvida; embora a capa me gerou curiosidade, pois não me fazia sentido, e comparando-a com outras fez menos sentido ainda, ela está tão relacionada à história que é difícil comentar (aliás, eu achava que era uma fênix, mas, pelo que entendi, é um gavião). Então, por essa visão, não, não é, pois embora a capa não reflita toda a grandeza da obra, reflete grande essência dela – é difícil uma capa fechar inteiramente com a obra, não? Contudo, se analisarmos ser de um autor um pouco desconhecido, geralmente associado a esse amontoado de questões que traz, de certo onirismo, com a possível crítica e tudo o mais... Além de capas que podem não atrair novos leitores... Bom, nesse caso eu consideraria um ouriço. Mas deixarei a decisão desse em aberto. Leiam e digam-me suas opiniões. =)

HESSE, Hermann. Demian. 37. ed. Rio de Janeiro: Record. 2006. Tradução e prefácio de Ivo Barroso. 188 p.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Os sofrimentos do jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe

“E, todavia, ser incompreendido, é esse o destino da gente!” (GOETHE, 2014, p. 21).

Dizem com muita frequência que a única certeza que temos na vida é a morte. Todos os seres vivos um dia morrerão! Essa morte pode se dar naturalmente – por velhice –, por doenças, acidentes ou... Por vontade de extinguir a própria vida. Sim, suicídio. Apesar de ser um ato individual que não provoca efeitos físicos em outros seres vivos, o suicídio costuma ser um tabu, algo que as pessoas evitam pensar, até que, por um motivo ou outro, são obrigadas a pensar a respeito. Seja um personagem de livro que se suicide, ou algo da vida real. Seja conhecido ou completo desconhecido. O maior fato, e talvez mais trágico do que o próprio suicídio, é que as pessoas não sabem lidar com isso, não possuem um pensamento mais complexo do que “covarde”, “não devia ter feito isso”, “devia ter esperado a situação se acalmar” etc. Não exponho essa questão como se soubesse ou já tivesse lidado com isso, mas, como muitas pessoas, em algum momento da minha vida, já pensei a respeito sobre isso – e é isso que considero importante, pensar a respeito. Antes de qualquer outra coisa, convém relembrar que cada caso é um caso, que tudo é relativo, e que se deve, sempre que possível, evitar os conceitos prévios e equivocados que fazemos dos outros.

“De resto, meu caro, dia a dia vejo com mais clareza quão estúpido é o ato de julgar os outros pelas nossas próprias faculdades.” (op. cit., p. 91).

É compreensível que as pessoas não gostem de tocar nesses temas, pois por vezes estão envoltos por camadas tão frágeis de nossas próprias existências que tememos essa fragilidade, o desconhecido que vem disso, o sofrimento e a angustia de saber que, na verdade, nada sabemos. Mesmo agora, escrevendo sobre isso, parece-me que mesmo cem páginas que eu viesse a escrever ainda estariam incompletas, sendo apenas um poucochinho insignificante sobre a extensão e complexidade que é o ato de tirar a própria vida. Meus conhecimentos sobre isso se resumem ao que li e refleti em alguns poucos livros de Literatura. Se me recordo bem, os livros mais recente que li sobre isso foram: A playlist de Hayden (Michelle Falkoff), que li em 2015, apesar de que este livro bonitinho era mais sobre bullying do que sobre suicídio; e A elegância do ouriço (Muriel Barbery), em que uma das narradoras decide pôr fim a sua vida no seu aniversário de treze anos caso não encontre um sentido para a vida – a citação abaixo é uma fala dessa adolescente sobre suicídio. Enfim, a questão é que posso estar aqui falando besteira e comentando muito mal sobre um livro fantástico. Peço desculpas, afirmando que meu único objetivo é colocar para fora, jorrar em palavras o que penso sobre isso – pelo menos uma parcela disso –, e agradeceria se corrigissem quaisquer eventuais comentários equivocados.

“E também, acima de tudo, lancei a mim mesma um pequeno desafio: se a gente se suicida, deve ter certeza do que faz e não pode queimar o apartamento “a troco de nada”. Então, se existe alguma coisa neste mundo pela qual vale a pena viver, não devo perdê-la, pois, quando estiver morta, será tarde demais para ter arrependimentos e porque morrer por termos nos enganado é, de fato, muito idiota” (BARBERY, 2008, p. 36, Paloma).

Por mais óbvio que possa ser, no fim das contas, ninguém sabe o que acontece depois da morte. Ninguém sabe se o suicida tem um destino diferente. Quem sabe acabe tudo da mesma forma. Quem nos dirá?
Apesar dessa introdução grandinha, devo dizer que este texto é, na verdade, uma espécie de resenha de um livro simplesmente fantástico que aborda esse assunto: Os sofrimentos do jovem Werther, do alemão Johann Wolfgang von Goethe. Escrito em 1774, e com muitos pontos que provém da realidade, isso é, com muitos fatos autobiográficos e com episódios de fato acontecidos – mas não o é toda literatura uma cópia de parte da realidade? –, a obra é uma junção de várias cartas do jovem Werther a seu amigo Guilherme e, posteriormente, a Carlota e Alberto. Se fosse para descrever em uma frase, usaria a disposta na contracapa do livro – pela edição da L&PM –, “Uma paixão devastadora e mortal”. Mesmo para aqueles que não conhecem a obra, não considero um spoiler maldoso dizer que o jovem Werther, o protagonista sentimental e romântico, acaba por se suicidar. Mesmo a quem considere isso um spoiler, afirmo: Leiam! Eu li com a quase certeza de que ele se mataria, li já percebendo as deixas de que poderia ser levado a isso, de que poderia ser capaz de dar fim a própria vida, e a experiência, asseguro, foi maravilhosa. Um livro singular que fala de suicídio como nenhum outro da Literatura que conheço e li até então – aceito recomendações, aliás. E que, além disso, consegue abordar tantas outras coisas! Consegue falar de classes sociais, de trabalho, de amizade, de mau humor! Já pararam para pensar no quanto o mau humor, nosso próprio mau humor, afeta a nós a ao nosso meio?

“Não será o mau humor muito antes uma insatisfação íntima com a nossa própria indignidade, um descontentamento com nós mesmos, que sempre vem atado a uma inveja, fomentada por uma vaidade insana? Vemos homens felizes cuja felicidade não é obra nossa e isso nos resulta insuportável.” (op. cit., p. 51).

A obra data do século XVIII, mas algumas frases são tão atuais, que podemos refletir sobre elas, assim, fora do contexto, como a citação acima. Sobre o nosso mau humor conosco, nosso mau humor que provém da felicidade alheia não ser resultado nosso etc. Pensemos um pouco: em pleno século XXI, como o mau humor nos afeta? Às vezes, diria até muito frequentemente, acabamos passando esse mau humor aos outros, descontando em pessoas que nada tem a ver com nossos assuntos. Quantas vezes deixamos de ser bem atendidos por um funcionário incomodado com algo totalmente desconhecido a nós? Quantas vezes descontamos a raiva, frustração ou mesmo decepção em alguém que nada tem a ver com o problema? Quantas vezes, sem perceber, nos incomodamos com tão pouca coisa, deixando isso afetar todo nosso dia? De fato, devemos, às vezes, desabafar nossos problemas, resolver a fonte de nosso mau humor etc. Afinal, é fato que guardar tudo para si mesmo faz mal.
Às vezes, tudo que falta é parar, respirar e ver o que se está fazendo. Ao mesmo tempo, nessa época tão corrida, parece que isso é impossível. E, talvez, às vezes, seja mesmo. Mas o que é o impossível ante toda uma vida pela frente? O que são quinze minutos para evitar horas e horas de mau humor, desentendimentos e arrependimentos?
(Não, isso não é um texto estilo autoajuda! Ou talvez seja?)
Muitas vezes o que falta é a pessoa se conhecer, compreender a si mesma, reservar um tempo para descobrir-se, deixar se conhecer.  Afinal, o “descontentamento com nós mesmos” (op. cit.) pode ser pouco ao início, mas seu acúmulo pode deixar-nos cegos quanto à beleza que se expande ao nosso redor, como quanto aos pequenos gestos gentis de nossos colegas. Conseguem ver a relação disso com o suicídio?
Como já disse, é uma questão bem relativa, bem subjetiva, que um texto tão curto quanto este pode vir a ser o mesmo que nada, dado que cada caso é um caso. Bem, um exemplo meio... Simples, talvez, seria pensar o seguinte: se não vejo em mim mesma nada de agradável e passo a dedicar toda minha vida a uma pessoa que considero maravilhosa, de modo que toda minha existência seja a contemplação e atuação para a melhor condição dessa pessoa, quando esse ser partir, o que será de mim? O que tenho em mim que me faça ter vontade ou mesmo coragem de continuar? Nada, resta a morte. O suicídio pode vir a ser tanto um desgosto com o mundo quanto um desgosto consigo mesmo.
Um exemplo parecido com esse – acho que acabei de plagiar Goethe, sorry – aparece no livro, num trecho que acho incrível, disposto na citação abaixo. Para que se melhor entenda o contexto da citação, convém agora explicar o enredo da obra de Goethe. Werther, aparentemente, muda-se para outra cidade (será que posso chamar de cidade?), para longe de seu amigo Guilherme, sendo a partir de então que lemos suas cartas. De início vemos sua reação com o local e com a natureza, vemos o rapaz sensível que ele é. Até que, ainda ao começo, vemos que ele relata estar encantado, apaixonado por uma moça chamada Carlota. Acontece que ela já está comprometida, noiva, de Alberto. Esse é, em resumo, o enredo central da obra. Apesar de seu imenso amor por Carlota, ele não pode ser correspondido, o que gera sentimentos e ações um tanto quanto dramáticos. Tudo envolto no plano de fundo do sentimentalismo com a natureza e com o que o cerca. Werther, numa conversa com Alberto – o noivo de sua amada –, acaba por apontar uma arma descarregada à própria cabeça – num gesto sem a intenção de se matar, pois sabia que estava descarregada –, o que traz à tona o assunto do suicídio. Nisso, Werther comenta a história de uma jovem moça que dedica toda sua vida a um rapaz que a abandona, e, em meio ao diálogo, expõe a fala abaixo.

“Ai daquele que, à vista disso, fosse capaz de dizer: ‘Que louca! Se tivesse esperado, se houvesse deixado o tempo correr, o seu desespero ter-se-ia acalmado e em breve encontraria um outro que a consolasse’. É exatamente como se alguém dissesse: ‘O louco vai morrer de febre! Se tivesse esperado até que suas forças voltassem, até que se houvessem corrigido seus humores e apaziguado o tumulto de seu sangue, tudo se restabeleceria e estaria vivendo até hoje’.” (op. cit., p. 72).

Muito se pode dizer sobre esse trecho, mas gostaria de comentar que nem tudo é simples, que esperar (não) resolve. Nem sempre se encontra uma pessoa que salvará sua vida como se pode, possivelmente, encontrar em histórias contemporâneas – não digo que é errada essa visão, pelo contrário, às vezes é muito bom saber que há algo melhor à frente, que podemos encontrar um ponto de alívio. O que enxerguei no trecho é isso: você pode esperar até morrer de velhice e não dar em nada; às vezes, não há como esperar. A realidade, queridas pessoas, nem sempre vai lhes pôr uma âncora na qual poderão se fixar nos piores momentos que passarem. Não é querer ser pessimista, nem realista demais. Num mundo ideal todos encontrariam esse ponto de salvação, essa solução, essa paz... Mas o que vemos? Os suicídios continuam... Ao mesmo tempo, não acho que isso seja um incentivo ao suicídio caso se esteja passando por situações semelhantes. Pelo contrário! Vejo nisso, além de uma forma incrível de encarar a vida por meio da Literatura, uma forma de dizer que precisamos pensar e construir a nós mesmos, quem somos, quem queremos ser. Além disso, a citação também demonstra outra questão essencial: não devemos julgar sem saber o que a pessoa estava passando e sentindo.
É comum dizermos “há pessoas em situações piores” e julgarmos nossa situação indigna de insatisfação. “Reclamas do frio? Há quem morra literalmente de frio”. Sabem, precisamos, claro, levar em consideração nossa sorte de não estarmos pior, mas precisamos, também, considerar que cada contexto é um contexto, que cada pessoa possui um limite diferente. O que para mim pode não ser nada, ser o mesmo que ver a poeira sendo varrida para a rua, para outra pessoa pode ser algo que lhe arranque as entranhas! Enquanto para um sujeito tirar zero numa avaliação seja o fim do mundo, para outro isso não significa nada.

“Essas são mais algumas das tuas extravagâncias”, disse Alberto. “Exageras tudo e, por certo, cometes pelo menos o erro de aceitar o suicídio, que é do que estamos falando agora, como se fosse uma grande ação, quando não é nada mais do que simplesmente fraqueza. Pois, para ser sincero, é mais fácil morrer do que suportar com firmeza uma vida de tormentos.” (op. cit., p. 69).

É fácil dizer que foi fraqueza de uma pessoa, ou mesmo estupidez, ter se matado por “ser abandonado”, mas será que sabemos como o sujeito realmente está? Será que sabemos como realmente se sente em casa, consigo mesmo, com o mundo?

“A questão não é, pois, saber se um homem é fraco ou forte, mas se pode suportar o peso dos seus sofrimentos, quer morais, quer físicos.” (op. cit., p. 70).

Imagino que pessoas com maiores conhecimentos sobre a mente humana ou assuntos relacionados possam vir a falar melhor sobre isso. Portanto, focarei, agora, brevemente, na obra de Goethe. Um primeiro ponto a se observar é a narrativa, que utiliza bastante dos pronomes “vós” e “tu”, o que pode causar uma estranheza na leitura. Fora isso, achei a linguagem fluída e, até, um tanto encantadora. São várias cartas, então pode-se dizer que há alguns “furos”, algumas cenas e episódios de que não temos conhecimentos, mesmo porque, sendo cartas, só temos noção do que é contado ao destinatário. Além de que não sabemos o que contém nas cartas que Werther recebia de resposta, apenas algumas menções nas próprias cartas de Werther. De algum modo, durante a leitura, me lembrei de As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky. Apesar de bem diferentes, são cartas, possuem narrativas fluídas e, por algum motivo, falam dessa amplitude da existência humana. Mas pode ser só um equívoco meu.
Diria que esta é uma das obras que tem de ser lidas em algum momento da vida. Pode ser meio romântico demais para algumas pessoas? Pode. Talvez seja mesmo. Contudo, a beleza de Os sofrimentos do jovem Werther não está apenas na superfície, em ser um rapaz sensível que, pelas decepções da vida, tira a própria vida com as armas do noivo de sua amada. A obra tem sua elegância nisso também, claro, mas também por abordar um assunto tão delicado, em meio a tantos outros, conseguindo, com certa sutileza e certo arrebatamento, falar de tópicos tão fortes.
Por outro lado, não posso deixar de pensar e comentar que muitas pessoas evitam o livro justamente por isso, pelos temas fortes e pelo teor dramático. E me pergunto: Por que evitar temas fortes? Por que evitar o drama?
Por fim, convém questionar o seguinte: a obra pode ser considerada culpada ou associada aos suicídios? Acho que, de algum modo, sim, mas, de outro, não. Diria que, no máximo, a obra pode ser a última gota para o copo transbordar, o gatilho que as pessoas precisam para se impulsionar a fazer algo. Mas jamais culparia a obra. Ela jamais fará com que alguém se mate sem ter, anteriormente, essa tendência. Porque a obra, a meu ver, mostra que o suicídio não é de todo uma fraqueza. Talvez até que as pessoas precisam ser fortes para fazer isso. Precisam atingir um limite de suas existências. Enfim... Cada caso é um caso, não devemos julgar com os julgamentos e conceitos que temos. E que devemos pensar um pouco nisso.

“E é esta a característica mais evidente do nosso espírito, supor que é tudo confusão e trevas aquilo sobre o que não sabemos nada ao certo.” (op. cit., p. 143).


BARBERY, Muriel. A elegância do ouriço. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 7ª reimpressão. Tradução de Rosa Freire d’Aguiar.

GOETHE, Johann Wolfgang. Os sofrimentos do jovem Werther. Porto Alegre: L&PM, 2014. Tradução, organização, prefácio, comentários e notas de Marcelo Backes. 192 p. (Coleção L&PM POCKET; v. 217).